Coimbra  8 de Maio de 2026 | Director: Lino Vinhal

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Hernâni Caniço

Do Choupal até à Lapa, apenas uma canção?

8 de Maio 2026

Três meses após a tempestade Kristin, o caminho principal do Choupal continua impedido por árvores derrubadas e não retiradas, tal como vários percursos transversais, e não sabemos quanto mais tempo assim continuará. Além da inacção, nenhuma informação é dada, como se estivéssemos na era das cavernas e não na IA.

De longa data, entre faltas de preservação, o circuito de manutenção continua sem eficácia, a tartaruga icónica está cada vez mais dilacerada, os habitáculos de observação das aves estão em degradação acelerada (e mesmo a nidificação das aves está reduzida), as estruturas de madeira estão deterioradas (com excepções), WC de apoio são nojentos.

O Choupal é uma Mata Nacional, gerida pela administração central (ICNF), mas já M. Machado, enquanto presidente da Câmara, em 2015, se queixava do Governo que não respondia às suas propostas de cogestão partilhada, no contexto da requalificação urbana e ambiental.

Durante 8 anos, como deputado municipal e depois como vereador, proferi intervenções formais e escrevi artigos de opinião, defendendo o Choupal reabilitado, em articulação com o rio Mondego, criação de actividades e responsabilidade partilhada. E também propugnei por higiene e salubridade exemplares, pedagogia do civismo, conservação e alargamento dos circuitos, criação de espaços indoor para crianças em dias de frio e parque outdoor de proximidade, pavimentos corrigidos para ciclistas, mais vias pedonais, meeting point, uma via verde cidade-rio. Fui ignorado.

O estado em que está

Há esforço do ICNF em higiene e limpeza dos caminhos, manutenção de espaços arbóreos e reabilitação da Casa da Mata, mas também vemos que as vias pedonais e rodoviárias mistas estão decrépitas (irregulares e de bordos indefinidos), que faltam placas de sinalização de espaços de orientação ou estão danificadas, que o espaço confinante ao canal de rega e o parque de merendas precisam reabilitação, que a identificação das espécies arbóreas está incompleta, que há circulação de cavalos (proibida) e dejectos em múltiplas zonas, que as áreas de estacionamento necessitam regularização, que não há vigilância e controlo adequado da falta de civismo (com contentores e actuação de vigilantes e policiais).

E não há fruição do bambuzal junto à Casa da Mata, escondido e alvo de roubos, não há núcleo museológico nem oficina de trabalhos em madeira, nem melhoria do percurso temático “floresta viva” e do circuito temático “vida aquática”, borboletário, anfiteatro ao ar livre, consolidação do parque desportivo, posto de primeiros socorros, etc., como era anunciado em 2010…

Há uma nova luz ao fundo do túnel. Ana Abrunhosa, presidente da Câmara, anunciou o pedido de gestão partilhada do Choupal.

Seria uma grande obra se, para além do Choupal, fosse criado um parque verde e reabilitação da Lapa dos Esteios (e zonas envolventes da margem esquerda do Mondego), que tem um património arquitectónico, jardins e plantas, exuberante vegetação ribeirinha e excepcional vista sobre a cidade. Foi classificado em 2011 como local de interesse público, e segundo estudo etnobotânico do Prof. Jorge Paiva, tem 135 espécies identificadas, com um conjunto de plantas medicinais, comestíveis e venenosas. O financiamento poderia advir do Portugal 2030 (que tem apenas 60% das verbas destinadas), via Programas Sustentável 2030 e Centro 2030.

Do Choupal até à Lapa seria assim, não apenas uma emblemática canção, mas uma prestigiada imagem de Coimbra, que se quer mais verde, mais conectada, mais social, mais próxima dos cidadãos.

(*) Médico