Coimbra  26 de Abril de 2026 | Director: Lino Vinhal

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José Manuel Pureza: “Estamos a assistir à erosão acelerada da ordem internacional”

26 de Abril 2026 Jornal Campeão: José Manuel Pureza: “Estamos a assistir à erosão acelerada da ordem internacional”

Professor de Relações Internacionais da Universidade de Coimbra e coordenador do Bloco de Esquerda, José Manuel Pureza esteve na Rádio Regional do Centro para ajudar a perceber os conflitos crescentes a que o mundo assiste, em particular a escalada entre os Estados Unidos da América e o Irão. Numa leitura crítica e abrangente, falou da crise da ordem internacional, do papel da China, da fragilidade da Europa e dos custos sociais que esta instabilidade já está a fazer sentir.

Campeão das Províncias [CP]: O que está por detrás desta instabilidade internacional que se agravou nos últimos tempos?
José Manuel Pureza [JMP]:
Para perceber o presente, convém recuar a 1945. No final da Segunda Guerra Mundial criou-se uma ordem internacional assente em regras: a não utilização da força, a primazia da diplomacia, a não ingerência nos assuntos internos dos Estados, a autodeterminação dos povos, a solução pacífica de controvérsias entre os Estados, etc.Essa ordem foi muitas vezes violada, é certo, mas continuava a existir como referência. O que estamos hoje a viver é a erosão muito rápida dessa ordem. Há razões políticas, económicas e também uma cultura crescente de força e de unilateralismo. Trump é um factor importante, mas a sua idiossincrasia não explica tudo.

[CP]: Então o problema é mais fundo do que a personalidade de Donald Trump?
[JMP]:
Sem dúvida. Trump encarna esta mudança de forma caricatural e agressiva, mas o essencial está na tensão crescente entre as duas grandes potências imperiais do nosso tempo: os Estados Unidos e a China. A China tem alargado a sua influência de forma mais discreta e eficaz, sobretudo pela via económica, em África, na Ásia, na América Latina e até em infra-estruturas estratégicas europeias. Os Estados Unidos respondem com crescente agressividade e com um desprezo cada vez mais claro pelas instituições e pelas regras do direito internacional.

[CP]: E onde entra o Irão neste quadro?
[JMP]:
O Irão, tal como a Venezuela, insere-se numa disputa mais vasta pelo controlo das fontes de combustíveis fósseis e das rotas estratégicas. Há uma lógica de fundo na actuação norte-americana: limitar fontes de abastecimento essenciais à China. É por isso que o Estreito de Ormuz é tão decisivo. A China tem todo o interesse em pressionar para a reabertura da navegação e para o regresso às negociações, porque depende desse corredor para o seu abastecimento energético.

[CP]: Acredita numa solução duradoura para este conflito?
[JMP]:
Não creio numa solução de fundo. O mais provável é uma solução circunstancial, de serviços mínimos, que permita reabrir Ormuz e estabilizar temporariamente a situação. Mas será sempre provisória. O Médio Oriente continuará a ser uma região profundamente instável, até porque nenhuma das questões de fundo – como o reconhecimento da Palestina ou a efetiva autonomia estratégica dos países daquela região – está resolvida.

[CP]: Os Estados Unidos alcançaram os objectivos que anunciaram?
[JMP]:
A minha resposta é não. A mudança de regime em Teerão não aconteceu; pelo contrário, a guerra reforçou o nacionalismo iraniano e deu ao regime maior capacidade repressiva. Também não há prova de que tenham sido eliminados os alegados projectos nucleares. A retórica triunfalista de Trump pertence mais ao domínio da fantasia do que ao dos factos.

[CP]: Esta crise desviou as atenções de outros conflitos?
[JMP]:
Claramente. Enquanto o foco mediático se concentra no Irão, a chacina do povo palestiniano continua. Israel prossegue a devastação de Gaza, intensifica a pressão sobre a Cisjordânia e adopta uma postura ainda mais agressiva em toda a região. Fá-lo com a complacência, e muitas vezes com a concordância activa, da administração norte-americana. Há, além disso, um interesse político interno de Netanyahu em prolongar a lógica de guerra para sobreviver politicamente.

[CP]: E a Europa, como está a reagir?
[JMP]:
De forma contraditória e, em muitos casos, com grande incapacidade para perceber que os Estados Unidos de Trump já não são um aliado, mas um adversário da própria Europa. Durante demasiado tempo, muitos governos europeus viveram na ilusão de que tudo voltaria ao normal depois de Trump. Tenho muitas dúvidas de que assim seja. Ainda assim, começam a surgir fissuras. Espanha tem dado sinais claros de autonomia, ao recusar facilitar violações do direito internacional. Itália e, em certa medida, França também mostram algum afastamento. Já Portugal mantém-se num alinhamento passivo, ou mesmo activo, com a política norte-americana.

[CP]: Refere-se, por exemplo, ao caso da Base das Lajes?
[JMP]:
Exactamente. É muito difícil apregoar a defesa do direito internacional e, ao mesmo tempo, permitir que território nacional seja usado em operações que o violam grosseiramente. Não me parecem credíveis as garantias dadas pelo Governo sobre a utilização das Lajes. É evidente que aquela infra-estrutura foi usada no quadro desta estratégia militar.

[CP]: Que leitura faz do estado das instituições internacionais?
[JMP]:
Um dos traços mais marcantes do nosso tempo é a fragilização das instituições criadas depois da Segunda Guerra Mundial. A ONU está enfraquecida porque os Estados mais poderosos desinvestiram dela deliberadamente. O Conselho de Segurança continua paralisado pelo direito de veto das cinco potências permanentes. A NATO, por sua vez, vê posta em causa a própria razão de ser, porque foi criada sob tutela norte-americana para garantir a segurança europeia, e hoje é essa mesma tutela que se tornou instável e hostil. Quanto à União Europeia, está dilacerada por tudo isto.

[CP]: E quais serão as consequências mais imediatas para os europeus?
[JMP]:
A mais directa é económica e social. Para além da destruição de vidas e territórios, esta guerra traduz-se em inflação, aumento do custo de vida e degradação das condições sociais. Basta ir pôr combustível ou fazer compras no supermercado para perceber que cada pessoa em Portugal já está a pagar uma parte desta guerra. E isso tenderá a agravar-se.

[CP]: Que riscos políticos decorrem daí?
[JMP]:
O maior perigo é a crise social que aí vem. E essa crise alimenta os populismos e as extremas-direitas. Vivem do descontentamento, da aflição e da perda de confiança. Se os governos europeus não perceberem isto a tempo, o preço político e social será muito pesado.

 

Lino Vinhal/Joana Alvim