Coimbra  15 de Março de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Ferreira

A extinção (anunciada) de um dinossauro essencial

7 de Agosto 2025

A decisão de extinguir a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), anunciada no final de Julho como parte da reforma do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI), marca um momento de rotura para o sistema científico nacional.

A FCT, tal como a conhecemos, deixará de existir, sendo integrada numa nova “Agência para a Investigação e Inovação”, juntamente com a Agência Nacional da Inovação (ANI), no quadro de uma reorganização administrativa que reduzirá o número de entidades do MECI de 18 para sete.

O discurso do Sr. Ministro Fernando Alexandre é claro: a atual arquitetura é anacrónica, desarticulada e ineficiente – fragmentada por sistemas de informação que não comunicam e processos que não respondem à velocidade dos desafios científicos contemporâneos. Numa leitura meramente administrativa, esta é uma medida compreensível. A modernização do Estado é uma exigência permanente. E o propósito de criar estruturas mais interoperáveis, integradas e orientadas para resultados é, em teoria, um passo na direção certa.

A criação da nova Agência para a Reforma Tecnológica, e de um instituto para a qualidade da avaliação e da educação, revela uma ambição real de reconfigurar o aparelho do Estado numa lógica mais digital, simplificada e, porventura, mais funcional. Há, inegavelmente, racionalidade e visão estrutural na proposta. Mas há reformas que, mesmo quando bem-intencionadas, encerram uma dimensão de perda que não pode ser ignorada. A FCT não era apenas uma engrenagem burocrática – era, para muitos, o coração de um modelo de ciência pública em Portugal. O seu nome, o seu funcionamento, a sua reputação junto da comunidade científica, eram sinónimos de rigor, continuidade e estabilidade!

Ao longo de mais de duas décadas, a FCT financiou ideias, pessoas e instituições que hoje constituem o núcleo duro da investigação nacional. Era, para muitos de nós, uma espécie de “dinossauro institucional”: uma entidade antiga, sim, mas resiliente, sólida e, acima de tudo, necessária… Usar o termo “extinção” – tal como foi feito – carrega consigo um simbolismo difícil de ignorar. É impossível não pensar na metáfora evolutiva: extinguem-se os dinossauros para que novas formas de vida possam emergir. Mas, ao contrário do que ocorreu há 65 milhões de anos, esta extinção é política e deliberada. E a pergunta que paira é: estamos a assistir a uma extinção necessária ou a um desaparecimento prematuro de algo que ainda era vital?

Como fã incondicional da FCT, reconheço nela uma das poucas instituições públicas que funcionava com consistência, previsibilidade e credibilidade. Não era perfeita — longe disso. Faltava-lhe, notoriamente, uma estrutura robusta de apoio técnico aos bolseiros, um investimento mais forte na literacia e no método de comunicação com os jovens investigadores. Muitos estudantes, confrontados com a complexidade dos regulamentos e da execução de bolsas, encontravam-se perdidos entre formulários, prazos e plataformas. Mas nada disso anulava a qualidade do seu funcionamento global, o profissionalismo dos seus avaliadores e técnicos, nem o respeito que granjeava dentro e fora de Portugal.

A extinção da FCT gera um sentimento paradoxal! Por um lado, há quem celebre a possibilidade de uma reorganização mais ágil e moderna. Por outro, instala-se uma nostalgia legítima — não por romantismo burocrático, mas pelo reconhecimento da solidez institucional que se está a apagar. Uma fundação como a FCT não se substitui com facilidade… Pode apagar-se o nome, fundir departamentos e criar novas siglas, mas não se reconstrói, do zero, a confiança acumulada ao longo de décadas… Que a nova agência saiba herdar o melhor da FCT: o rigor dos processos, a transparência dos concursos, o apoio ao mérito académico e a valorização da ciência como bem público. Mas que vá mais longe onde a FCT ficou aquém, na proximidade com os estudantes, na simplificação das práticas e na pedagogia institucional.

Uma reforma que nasce da promessa de modernidade, mas falha no compromisso com as pessoas, corre o risco de ser apenas mais uma mudança cosmética – com mais chefias, mais plataformas, e menos alma. Extinguir dinossauros é fácil… Difícil é construir ecossistemas novos onde a ciência não sobreviva apenas, mas floresça! Se o novo ecossistema for verdadeiramente mais simples, mais justo e mais próximo da comunidade, haverá espaço para esperança. Mas se esta reforma for apenas um rebranding com menos memória e menos alma, poderemos olhar para trás com saudade, como se olha para os fósseis: belos, mas já sem vida.

(*) Doutorando da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra