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Investigadores da UC desenvolvem estudo sobre bactéria transmitida por carraças

14 de Dezembro 2021

Investigadores do Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra (CNC-UC) descobriram como a Rickettsia, uma bactéria responsável por doenças como a febre da carraça, consegue escapar ao sistema imunitário.

Segundo a UC, as carraças não são responsáveis pela febre da carraça, mas sim os microrganismos que podem estar no seu interior, sendo a Rickettsia uma das bactérias que podem ser encontradas em parasitas como as carraças, pulgas ou piolhos.

Esta descoberta “abre portas ao desenvolvimento de novas terapêuticas contra doenças infecciosas”, considera a instituição.

De acordo com o estudo, as alterações climáticas estão a favorecer estes parasitas, uma vez que “o aumento da temperatura global permite que estes estejam activos mais tempo durante o ano”, o que cria “uma maior dispersão geográfica de parasitas que podem transportar bactérias perigosas para a saúde humana”.

Pedro Curto e Isaura Simões, investigadores do CNC-UC, estudaram uma proteína presente na superfície da bactéria Rickettsia, a APRc, com o objectivo de perceber como estas bactérias infectam o organismo humano. “Após a picada de uma carraça infectada, a Rickettsia entra na corrente sanguínea onde vai ser exposta a toda a maquinaria do nosso sistema imunitário. Neste ponto, a prioridade da bactéria será proteger-se e entrar a todo o custo nas nossas células, pois a sua sobrevivência e capacidade de infecção dependem disso”, esclarece Pedro Curto, primeiro autor do estudo.

Os microrganismos infecciosos possuem diversos mecanismos de escape ao nosso sistema imunitário. Já suspeitávamos que a proteína APRc, presente na superfície de Rickettsia, tem um papel importante na evasão da bactéria, mas neste estudo descobrimos que, para além disso, também a protege, impedindo que o sistema imunitário a elimine”, explica Isaura Simões, líder do estudo.

Esta investigação, já publicada na Revista “mBio”, mostrou que “a proteína APRc consegue ligar-se a anticorpos presentes na corrente sanguínea, impedindo o ataque do sistema imunitário e actuando como um escudo”. Para além disto, foi descoberto que a APRc oferece protecção extra à bactéria contra a actividade bactericida das proteínas presentes no soro (parte do sangue).

Os autores do estudo consideram, ainda, que “este é um passo importante da biologia fundamental e um contributo para o desenvolvimento de novas terapêuticas contra doenças infecciosas, que, infelizmente, estão a assumir um papel cada vez mais presente no mundo actual”.

De referir que este estudo foi financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), através do programa COMPETE 2020 – Programa Operacional Competitividade e Internacionalização –, e por fundos nacionais, através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

O artigo científico está disponível em https://journals.asm.org/doi/10.1128/mBio.03059-21.