Cândido Malva, presidente da União de Freguesias de Taveiro, Ameal e Arzila, fala ao Campeão das Províncias sobre os primeiros seis meses de mandato, a força das colectividades, os desafios da habitação, as acessibilidades, o Paul de Arzila e a importância de uma política feita com proximidade.
Campeão das Províncias [CP]: Faz agora seis meses que tomou posse. Está arrependido de ter aceitado este desafio?
Cândido Malva [CM]: Não estou arrependido. Já conhecia a realidade autárquica, embora agora com responsabilidades diferentes. Sabia ao que vinha e continuo convicto de que vale a pena trabalhar pela minha terra e pelas suas pessoas.
[CP]: Como se sente no exercício das funções de presidente da União de Freguesias?
[CM]: Sinto-me motivado. Há dificuldades, naturalmente, mas também há muita vontade de fazer. Quando entro num projecto, gosto de o fazer bem, com princípios, valores e respeito pelas pessoas.
[CP]: A proximidade parece ser uma palavra central no seu mandato. É essa a sua forma de estar?
[CM]: Sim. O poder local vive dessa presença diária. As pessoas sabem onde estamos, conhecem-nos e falam connosco directamente. Eu costumo dizer: falem comigo, mesmo que seja para me chamar a atenção. Só assim conseguimos corrigir e melhorar.
[CP]: Que relação encontrou com as colectividades da freguesia?
[CM]: Encontrei uma enorme disponibilidade. Na primeira reunião com as colectividades, das 19 existentes, estiveram presentes 17, com 38 representantes. Nas reuniões seguintes, a participação foi ainda mais forte. Isso mostra que há vontade de trabalhar em conjunto.
[CP]: Essa dinâmica associativa é uma das riquezas da União de Freguesias?
[CM]: Sem dúvida. Temos colectividades antigas, activas e com grande valor, como os Grupos Folclóricos de Arzila e Taveiro, o Grupo de Teatro Loucomotiva, o clube de futebol JDRA e a Filarmónica, que tem mais de século e meio de história, entre outras, com menos anos de vida, mas também muito dinâmicas. São todas estas instituições que dão identidade, cultura e vida à comunidade.
[CP]: Taveiro, Ameal e Arzila estão muito perto de Coimbra, mas nem sempre parecem suficientemente integradas na cidade. Como olha para essa questão?
[CM]: Coimbra não é apenas o centro urbano. A nossa União de Freguesias faz parte de Coimbra e tem condições para se afirmar mais. Estamos perto, temos qualidade de vida, temos património natural e temos pessoas com vontade de fazer. É preciso colocar mais esta zona no mapa.
[CP]: As acessibilidades continuam a ser um problema?
[CM]: São uma preocupação importante. A qualidade de vida também passa pelo tempo que as pessoas perdem nas deslocações. Há pontos críticos que precisam de solução e é fundamental que as entidades competentes olhem para eles com seriedade.
[CP]: O Paul de Arzila é um dos espaços naturais mais relevantes da freguesia. Está suficientemente valorizado?
[CM]: Não está. É um espaço muito bonito, com enorme potencial, mas que precisa de ser mais cuidado e aproveitado. Temos falado com várias pessoas e há vontade de encontrar soluções que permitam valorizar aquele património natural e torná-lo mais acessível à população.
[CP]: A habitação é hoje uma preocupação em Coimbra. A sua freguesia pode ajudar a responder a esse problema?
[CM]: Penso que sim. Há procura por esta zona e há terrenos que, dependendo da revisão do PDM, poderão permitir novas soluções habitacionais. É preciso criar condições, com equilíbrio, para que mais pessoas possam viver aqui.
[CP]: As freguesias têm meios suficientes para responder às necessidades das populações?
[CM]: Os meios são sempre limitados. As receitas próprias são reduzidas e dependemos muito dos apoios do Estado e da Câmara Municipal. Ainda assim, não podemos ficar parados. Temos de trabalhar, procurar soluções e estabelecer parcerias.
[CP]: Considera que o poder central ouve suficientemente o poder local?
[CM]: Nem sempre. Quem está no terreno conhece melhor a realidade das pessoas. Não se conhece uma freguesia por fotografias ou relatórios; conhece-se indo ao local, falando com as pessoas e percebendo os seus problemas.
[CP]: A futura linha de alta velocidade preocupa algumas populações da freguesia?
[CM]: Sim, há preocupação. Pelos estudos conhecidos, poderão existir impactos em casas e terrenos. É natural que as pessoas fiquem apreensivas. Quem trabalhou uma vida para construir a sua casa não encara de ânimo leve a possibilidade de a perder. O meu papel é acompanhar, ouvir e procurar que a população seja respeitada.
[CP]: Também preside à Academia do Bacalhau de Coimbra. Que importância tem essa dimensão solidária na sua vida?
[CM]: Tem muita importância. Entrei na Academia em 2018 e estou agora no segundo ano como presidente. A Academia do Bacalhau tem como principal objectivo a solidariedade. Reunimo-nos, convivemos, mas, acima de tudo, procuramos ajudar instituições e pessoas.
[CP]: Como funciona essa ajuda?
[CM]: Sempre que possível, procuramos realizar os nossos encontros em instituições de solidariedade. Pagamos a refeição e deixamos também um donativo. É uma forma simples, mas muito concreta, de apoiar quem trabalha diariamente pelos outros.
[CP]: O seu percurso profissional no Crédito Agrícola também lhe deu essa ligação às pessoas?
[CM]: Sim. Tenho 34 anos de Crédito Agrícola e sempre valorizei a proximidade, sendo também um dos lemas do Grupo Crédito Agrícola. O banco, sobretudo em territórios como o nosso, não é apenas uma instituição financeira; é também uma relação de confiança com as pessoas, com os agricultores, com as famílias e com a economia local.
[CP]: Que marca gostaria de deixar neste mandato?
[CM]: Gostaria de deixar uma freguesia mais próxima, mais valorizada e mais unida. Quero fazer o que estiver ao meu alcance para melhorar a vida das pessoas de Taveiro, Ameal e Arzila.
[CP]: Que mensagem deixa aos habitantes da União de Freguesias?
[CM]: Que contem comigo, mas que participem também. A freguesia não se faz apenas com o presidente ou com o executivo. Faz-se com todos os que querem ajudar, construir e defender a sua comunidade.