A edição de 2026 da Tektónica – Feira Internacional da Construção teve lugar de 23 a 25 de Abril, na FIL, em Lisboa. Com um “aumento significativo” de número de empresas participantes (400), o certame voltou a consolidar a dimensão internacional, com a presença de expositores de 15 países. O número de visitantes ultrapassou os 39 mil, num crescimento de cerca de 30% face à edição anterior. Trata-se de um valor apurado em conjunto com o Salão Imobiliário de Portugal (SIL), que decorreu em paralelo.
Em entrevista ao “Campeão das Províncias”, José Paulo Pinto, Gestor Coordenador da Tektónica, refere que o evento consolidou “a trajectória de crescimento que se tem verificado nas últimas edições”. Este dinamismo reflecte “a evolução do próprio sector”, sobretudo nas áreas directamente ligadas à inovação tecnológica e à eficiência energética. O responsável adianta que, ante estes dados, a Tektónica “reforça o seu posicionamento como “feira líder da Península Ibérica no sector da Construção, com uma forte capacidade de atrair empresas e profissionais qualificados”. Entre os segmentos mais dinâmicos destacaram-se a inovação tecnológica, a eficiência energética, smart building, novos materiais e processos construtivos industrializados, áreas que estão hoje no centro da transformação do sector.
Ao nível internacional, José Paulo Pinto destaca o crescimento da participação estrangeira, com empresas de 15 países. “Em particular, o mercado espanhol assumiu um papel de relevo, com 23 empresas, evidenciando o reforço consistente deste eixo ibérico”, salienta.
Eficiência, inovação e sustentabilidade
A inovação tecnológica e a eficiência energética na Construção foram os grandes temas do certame e esta escolha deveu-se, segundo o Gestor Coordenador da Tektónica, ao facto de o sector da Construção se encontrar numa fase de “forte transformação, impulsionada por exigências crescentes ao nível da eficiência energética, sustentabilidade e inovação tecnológica”. “A Tektónica espelha precisamente esse momento. As empresas encaram a feira como um espaço estratégico para apresentar soluções inovadoras e responder a um enquadramento cada vez mais exigente do ponto de vista técnico, ambiental e regulatório”, vinca. Mais do que acompanhar tendências, “o sector está hoje a integrar activamente tecnologias e soluções que impactam todas as fases do ciclo construtivo – desde o projecto à execução e manutenção. A presença de soluções ligadas a smart building, digitalização e novos materiais demonstra essa evolução”.
Uma das novidades em 2026 foi a introdução de uma área dedicada às Máquinas para Construção, que “surge como resposta directa à evolução das necessidades do sector e à crescente procura dos profissionais por soluções que aumentem a produtividade e eficiência em obra”. “Hoje, as máquinas deixaram de ser apenas equipamentos operacionais para integrarem sistemas tecnológicos avançados, com forte incorporação de digitalização, automação e eficiência energética”, sustenta. Soluções como controlo de precisão com base em GPS e integração com modelos BIM permitem uma execução mais rigorosa e eficiente, reduzindo desperdícios e acelerando processos. Ao mesmo tempo, tecnologias como telemetria, automação e eletrificação estão a transformar a gestão de frotas e operações em estaleiro. Com esta aposta, a Tektónica “alarga a sua oferta e reforça o seu posicionamento como uma plataforma que acompanha toda a cadeia de valor da Construção”, sublinha.
O problema da mão-de-obra
Sobre as grandes preocupações, “a escassez de mão-de-obra qualificada é um dos principais desafios e tem impacto directo na capacidade de resposta das empresas”, realça o responsável da feira. Neste contexto, “a Tektónica assume um papel cada vez mais relevante como ponto de encontro de toda a cadeia de valor da Construção” ao reunir donos de obra, projectistas, empreiteiros, fabricantes de equipamentos, fornecedores de tecnologia e instaladores num mesmo espaço, lembra José Paulo Pinto. E garante que “a feira cria um ambiente propício ao diálogo técnico, à partilha de conhecimento e à criação de novas parcerias”. Paralelamente, “a crescente incorporação de tecnologia e automação surge também como parte da resposta, permitindo optimizar processos e reduzir a dependência de mão-de-obra intensiva”. Num contexto em que os projectos são cada vez mais exigentes do ponto de vista técnico, ambiental e regulatório, “esta articulação entre diferentes perfis profissionais torna-se fundamental”. “A feira contribui, assim, para aproximar inovação, execução em obra e conhecimento técnico especializado, reforçando a capacidade para responder aos desafios actuais e futuros da Construção”, garante.
A visão da AIPOR
À margem da Tektónica, o “Campeão” falou também com Celeste Campinho, presidente da Direcção da Associação dos Instaladores de Portugal (AIPOR), organização que representa diversas áreas do sector das Instalações Técnicas Especiais. “Para a AIPOR, a Tektónica foi um sucesso. Tendo em conta a instabilidade internacional, este foi um palco muito importante para o diálogo e reencontro com empresas e profissionais”, frisa, lembrando a importância da união de todo o sector. Apesar das dificuldades actuais, a responsável refere que “a actividade na Construção mantém um nível elevado, e é essencial continuar a impulsionar este importante e decisivo sector para a economia nacional”. Por isso mesmo, partilha da preocupação de José Paulo Pinto em relação à mão-de-obra qualificada, que considera ser um dos principais desafios. Nesta perspectiva, a presidente da AIPOR defende ser “fulcral o reforço do ensino profissional”, que pode “colmatar carências” e ser “uma oportunidade para muitos jovens”, tendo em conta a forte componente tecnológica que comporta.
Acidentes mortais: “cada ocorrência deve ser encarada como um sinal de alerta”
Na semana em que decorreu a Tektónica, registaram-se dois acidentes graves envolvendo gruas, um em Buarcos, na Figueira da Foz, e outro em Eiras, Coimbra, culminando em duas vítimas mortais. O “Campeão das Províncias” falou com o presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas Nacional (AICCOPN), Manuel Reis Campos, que frisa que, “sem prejuízo das conclusões que venham a ser apuradas pelas entidades competentes, importa referir que a análise técnica deste tipo de ocorrências exige uma avaliação rigorosa de múltiplos factores, designadamente as condições de operação, os procedimentos de montagem, utilização e manutenção dos equipamentos, a qualificação dos operadores, o planeamento da obra e a implementação efectiva das medidas de segurança em estaleiro”, afirma.
“Acidentes com equipamentos de elevação, como gruas, estão geralmente associados a falhas específicas – de natureza técnica, operacional ou organizacional – e não a um problema estrutural generalizado”. Ainda assim, reforça que “cada ocorrência deve ser encarada como um sinal de alerta que justifica o reforço contínuo dos mecanismos de prevenção e controlo de riscos”, explica.
No que respeita à segurança no sector da Construção e Obras Públicas, Reis Campos salienta que “o enquadramento legal português é exigente e encontra-se alinhado com as directivas europeias, impondo a obrigatoriedade de elaboração e implementação de Planos de Segurança e Saúde, avaliação de riscos, formação adequada dos trabalhadores e utilização de equipamentos de trabalho devidamente certificados, incluindo inspecções e verificações periódicas”.
O Presidente da AICCOPN assegura que, de um modo geral, as empresas do sector – em particular as de maior dimensão e estruturação – “apresentam níveis de cumprimento elevados”. Contudo, subsistem desafios relevantes, nomeadamente: a escassez de mão-de-obra-qualificada, a diversidade de níveis de maturidade organizacional entre empresas e subempreiteiros, a necessidade de reforço da cultura de segurança em obra e a pressão associada aos prazos de execução, que exige uma gestão rigorosa para não comprometer as condições de segurança”.
Relativamente à fiscalização, Reis Campos diz que esta assume um “papel determinante na verificação do cumprimento das obrigações legais”. “É essencial que as entidades competentes disponham de meios técnicos e humanos adequados à dimensão e complexidade do sector, assegurando uma actuação regular, preventiva e tecnicamente qualificada”, considera, lembrando que a AICCOPN “tem vindo a desenvolver um trabalho contínuo junto das empresas, promovendo a adopção de boas práticas, a qualificação técnica dos recursos humanos e uma abordagem sistemática à gestão da segurança”.
Texto: Ana Clara (Jornalista do “Campeão” em Lisboa)