Coimbra  19 de Abril de 2026 | Director: Lino Vinhal

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Bertília Simão traça prioridades para Santa Clara e Castelo Viegas

19 de Abril 2026 Jornal Campeão: Bertília Simão traça prioridades para Santa Clara e Castelo Viegas

Santa Clara e Castelo Viegas são hoje um espelho de duas dinâmicas que se cruzam no mesmo território: o crescimento urbano e a preservação de uma identidade rural. Nesta entrevista, Bertília Simão, presidente da União das Freguesias, fala sobre as dificuldades, as obras em andamento e a visão traçada para o futuro desta parte do concelho de Coimbra.

 

Campeão das Províncias [CP]: Como é filha de um ex-presidente muito carismático, como é que define a sua própria marca pessoal na gestão das freguesias, distinguindo-se do legado do seu pai, José Simão?

Bertília Simão [BS]: É verdade que esse peso do legado continua muito presente e que, muitas vezes, essa comparação com o meu pai surge de forma natural. No entanto, acredito que a principal diferença que trago ao exercício destas funções está, desde logo, no facto de ser mulher. Tenho sentido, nestes primeiros meses de mandato, que essa dimensão tem sido particularmente visível, sobretudo através de uma sensibilidade diferente na forma de estar, de ouvir e de gerir.

Essa marca feminina tem-se destacado e, de alguma maneira, tem-me distinguido do passado. Sinto também que isso tem mobilizado muitas mulheres, que se revêem nesta presença e nesta forma de liderar, quase como se dissessem: agora é também o nosso tempo, agora também podemos mostrar o que vale uma mulher na liderança de uma autarquia.

Curiosamente, Santa Clara é, por si só, uma freguesia muito marcada pela presença feminina na sua identidade e na sua história. Temos a Rainha Santa Isabel, temos Inês de Castro, temos várias invocações religiosas ligadas ao feminino, como Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora da Piedade ou a Natividade. Há, de facto, uma forte simbologia feminina neste território. E, de certa forma, agora há também esse sinal na presidência da Junta.

 

 [CP]: É frequentemente descrita como uma autarca de terreno e de diálogo. Na sua mensagem de apresentação, destaca a vontade de construir uma “freguesia mais próxima e mais humana”, mantendo o legado de “porta aberta” que caracterizou a gestão anterior, mas com uma roupagem mais contemporânea. É isto que tem concretizado?

[BS]: Tenho procurado fazer da proximidade uma marca do meu mandato. Gosto de estar no terreno e de falar directamente com as pessoas, porque há problemas que só se percebem verdadeiramente no local. É também aí que consigo explicar o que está em causa e dar a cara pelas decisões, mesmo quando as soluções não dependem apenas de nós.

Essa forma de estar não é nova. Já antes acompanhava de perto o trabalho da freguesia, embora num papel mais discreto. Hoje tenho mais responsabilidade, mas mantenho a mesma postura, apoiada por uma equipa pequena, empenhada e com verdadeiro sentido de missão.

 

[CP]: Tem sido uma voz activa na defesa da Margem Esquerda de Coimbra, lutando por mais investimento e atenção da Câmara Municipal para equilibrar o desenvolvimento face à margem direita da cidade. Tem conseguido isto?

[BS]: Tenho procurado chamar a atenção para o potencial da margem esquerda e para a necessidade de haver mais investimento neste território. Apresentei à Câmara vários projectos prioritários, nomeadamente a valorização da frente ribeirinha, melhores acessibilidades e uma maior aposta turística.

Defendemos, por exemplo, uma ligação por teleférico entre a Rainha Santa e o Convento São Francisco, bem como a criação de um posto de turismo na margem esquerda. O espaço existe, mas falta financiamento. Tendo em conta o peso que esta freguesia já tem na dinâmica turística da cidade, faz todo o sentido que parte desse retorno seja reinvestido aqui.

 

 [CP]: Santa Clara e Castelo Viegas sofrem frequentemente com o peso do trânsito de quem entra em Coimbra. Que medidas ou pressões têm sido feitas junto da Câmara Municipal para melhorar a fluidez e os transportes públicos?

[BS]: Temos insistido junto da Câmara na necessidade de a margem esquerda ser plenamente integrada nas soluções de mobilidade da cidade, nomeadamente na futura expansão do metro. Precisamos de saber com clareza o que está previsto, porque sem essa informação torna-se difícil planear o futuro da freguesia.

Ao mesmo tempo, continuamos a pressionar para que avancem respostas em áreas concretas do dia-a-dia, como a acessibilidade, a requalificação do espaço público e a segurança. Com recursos muito limitados, temos sido obrigados a fazer escolhas, procurando equilibrar as grandes necessidades estruturais com as respostas mais imediatas à população.

 

[CP]: Como é que a Junta de Freguesia tem colaborado com as escolas locais para garantir que as crianças e jovens de Santa Clara e Castelo Viegas tenham as melhores condições possíveis?

[BS]: As escolas são uma prioridade para nós. Mesmo não sendo competência directa da Junta responder a tudo, procuramos, dentro das nossas possibilidades, dar o maior apoio possível, seja na manutenção, na resolução de pequenos problemas de infra-estruturas ou na disponibilização do autocarro para actividades escolares.

Mas o nosso trabalho não se fica pela logística. Gostamos de estar presentes nas escolas, de promover iniciativas com as crianças e de criar uma ligação próxima com a comunidade educativa. Um exemplo disso é o projecto dos ‘Agentes Jovens para a Cidadania’, que procura incentivar, desde cedo, valores de responsabilidade cívica e participação.

Temos a preocupação de acompanhar todas as escolas da freguesia e de ajudar a mantê-las vivas. Em alguns casos, houve mesmo estabelecimentos que estiveram em risco de encerrar e conseguiram manter-se activos, o que é muito importante para o território. Também aí se tem sentido o impacto positivo da diversidade da população, que trouxe nova vitalidade a várias escolas da freguesia.

 

[CP]: Numa freguesia com uma população consideravelmente envelhecida em certas zonas, que programas de combate ao isolamento social estão actualmente no terreno?

[BS]: Numa freguesia com população envelhecida, o combate ao isolamento tem sido uma preocupação constante. Uma das respostas que mais temos dinamizado passa pela organização de excursões e convívios, precisamente para tirar as pessoas de casa, promover o encontro e criar momentos de partilha. Muitas vezes, mais do que a questão financeira, o que existe é falta de confiança ou de companhia para sair, e a freguesia acaba por ter aí um papel importante.

Além dessas iniciativas, promovemos também actividades sazonais, como idas à praia, e organizamos, em articulação com a Comissão Social de Freguesia, a Feira do Envelhecimento Saudável. É um espaço de informação e sensibilização sobre temas como saúde, alimentação, segurança e respostas sociais, que procura dar aos seniores não só convívio, mas também mais conhecimento e apoio.

 

[CP]: O tecido associativo destas duas freguesias é muito rico. De que forma é que a União de Freguesias apoia as colectividades para que não percam a sua vitalidade?

[BS]: O tecido associativo da freguesia é, de facto, muito rico e a Junta procura estar presente sempre que pode, apoiando as colectividades nas suas actividades, seja do ponto de vista logístico, material ou institucional. Fazemo-lo com as associações culturais, com a marcha, com grupos tradicionais e também com várias instituições sociais, porque reconhecemos que o seu trabalho é essencial para manter viva a comunidade.

Esse apoio é dado dentro das nossas possibilidades, que nem sempre são as que gostaríamos, mas há uma preocupação constante em não deixar perder essa vitalidade associativa. O mesmo acontece com a Feira Popular, que continua a ser uma grande aposta nossa. Apesar dos custos elevados, temos procurado mantê-la viva, porque já ultrapassa largamente a dimensão da freguesia e é hoje uma tradição com importância para toda a cidade e até para quem nos visita de fora.

 

[CP]: Qual é a obra ou intervenção que a senhora Presidente não quer deixar de concluir até ao final deste mandato?

[BS]: Há várias intervenções que gostava muito de concretizar até ao fim do mandato, mas há uma que, para mim, é incontornável: não quero sair sem ver resolvida a Rua dos Leitões. É uma obra pequena em dimensão, mas muito importante para quem ali vive, e seria para mim incompreensível terminar estes quatro anos sem a ver feita.

Depois, há outros objectivos que também considero centrais: melhorar as ruas que ainda precisam de intervenção, reforçar a rede de parques infantis e criar melhores espaços de lazer e de desporto. No fundo, o que eu quero é deixar obra feita, visível e útil na vida das pessoas. Porque é isso que verdadeiramente marca um mandato: não o que se promete, mas o que se consegue transformar.