Declaração de interesses, por rigor ético e honestidade intelectual. Encabecei a lista do Bloco, candidata à assembleia de freguesia de São Martinho do Bispo e Ribeira de Frades, sem outra expectativa que não a de provocar diálogo sobre a freguesia. Portanto, fora da rota do poder institucional, mas com espaço para pensar o ‘estado de coisas’ no contexto atual da assembleia de freguesia e do executivo locais. Aqueles que me acompanharam mais de perto poderão confirmar que ‘acertei’ no número de votos que iriamos ter. Nesse sentido, parece-me que 201 votos também merecem voz e é em nome desse capital humano e da minha consciência cidadã crítica que decidi avançar com este texto.
Falemos de representatividade real. O PS,16,6%; O PSD, 16,5%; O Movimento UPA, 11,7%; O Chega, 5,9%; O PCP, 2,3%, O Bloco, 1,5%. Fomos 7456 votantes, de um universo de 13.341 inscritos. Um total de 5885 pessoas manifestaram indiferença e demissão em relação a este ato eleitoral. Obviamente que não discuto nem questiono a legitimidade política da força vencedora. Para o bem e para o menos bom, é a democracia a acontecer e temos o dever de a respeitar. Posso compreender que as forças políticas que obtiveram o segundo e o terceiro lugar se arroguem no direito de reclamar uma parcela significativa de representatividade. Mas a representatividade real que temos merecerá assim tanto ruído? Atentemos nas percentagens reais e não relativas e creio que todos teremos de assumir um banho enorme de humildade, dado que 5885 pessoas nada quiseram com estes projetos, narrativas e modos de fazer. O número parece-me impactante e questionador. Devia motivar uma reflexão séria. Não creio que estes episódios de ‘entretenimento’ (por decoro e eufemismo) tenham contribuído para um incremento de motivação desses ‘ausentes’. Estou convencido até que a sua ausência é uma forma de presença e que não acordar para esse facto levará a substanciais custos futuros.
A fragilidade da votação das forças políticas com expectativas de governação obrigaria a uma inevitável negociação. A mesma exige cedência e reclama uma cultura de diálogo, que nunca advém de um decreto. É mesmo cultura, situa-se a montante dos processos e precisa de ser cultivada. Fiz quatro coisas durante a campanha, que cumpre recordar. Saudei, por escrito, todos os cabeças de lista, “convocando-os” para uma reflexão conjunta sobre o bem comum, assumindo que ninguém tem a exclusividade das ideias. Desafiei-os depois a que assinássemos uma carta de compromisso ético para a campanha. Tentei que existisse um debate público entre os candidatos. Finalmente, esforcei-me para uma ação de escuta e diálogo com jovens do nono ano de escolaridade, o futuro da freguesia. O retorno? Pouquíssimas respostas, baixíssima disponibilidade e fracasso total das iniciativas. Alertei várias forças políticas que me parecia que ninguém iria vencer por maioria e o cenário ficaria ingovernável. Renovei esse alerta em dia de eleições. Já tinha ouvido que “éramos todos boa gente” e não era preciso compromisso ético. Que não valia a pena debater, “porque não era esse tipo de campanha que mobiliza pessoas”. No dia, ouvi que “por um voto se ganha e por um voto se perde”. Fracassei em todos os meus intentos. Lamentavelmente, creio que o cenário que estamos a viver prova que muito não se fez a montante e que uma cidadania crítica, responsável e empenhada não se constrói com entretenimento inconsistente a alienante.
O que mais me entristece como pessoa e como cidadão é que não vi sinais de que a discussão pós-eleições tenha sido sobre ideias, pensamento sustentado, ousadia e sonho sobre um desenho de freguesia melhor para todos. A base parece ter sido só a pobreza do ‘somos mais sérios que vocês’, traduzida em luta por lugares e poder. Bem sei que há quem defenda que “uma coisa é a ciência, outra é a opinião política”, mas reduzir o bem comum a esta luta de trincheira, onde o único argumento é “eu sou melhor que tu, porque sim” é uma menoridade que não dignifica quem a protagoniza e nada constrói de saudável para o todo.
Assim sendo, que possamos colocar na mesa ideias. Se assim for, elas serão enriquecidas com outras ideias. E, se perdermos, poderemos gostar menos, mas devemos ficar descansados, porque, na verdade e em certo sentido, ganhámos todos um pouco.