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Hernâni Caniço

Cai a máscara ao “PSD”

10 de Abril 2026

O PPD (Partido Popular Democrático) foi criado após o 25 de Abril de 1974, tendo como fundadores membros da ala liberal da Assembleia Nacional, que defendiam a democratização, no regime da ditadura de Salazar e Caetano, e que integrava Sá Carneiro, Magalhães Mota, Mota Amaral e Pinto Balsemão. Posteriormente, Sá Carneiro viria ainda a defender a social-democracia (união do socialismo com a democracia), que englobava ideais do socialismo democrático. Quão longe estamos…

Sá Carneiro advogava a liberdade de expressão do pensamento, proibida pela Constituição de 1933. Foi, aliás, a defesa da liberdade que me levou a ameaça de expulsão de colégio na juventude, após prova escrita da disciplina de Organização Política e Administrativa da Nação, onde contestei a ausência de direitos na Constituição. E obtive 14 valores na disciplina, quando todos os alunos obtinham 20 valores.

O PPD mudou para PPD/PSD (Partido Social Democrata) em 1976, ainda com Sá Carneiro, cujo objectivo era um “socialismo democrático”, entendia a social-democracia como a concretização do socialismo dentro de quadro democrático e pluralista, posicionando-se na esquerda democrática, com influências humanistas e sociais.

O PSD veio a abandonar progressivamente a designação PPD, e abandonou o campo da esquerda e a social-democracia, para se situar como partido da direita democrática, conservador e liberal, que defende o mercado livre, não valoriza o Estado Social, admite privilégios do poder económico aliada à sua política, convive bem e estimula as desigualdades sociais.

Internacionalmente, faz parte da família do PPE (Partido Popular Europeu), que agrega o centro direita, renegando e não sendo aceite no PES (Partido Socialista Europeu), onde se inserem partidos social-democratas como o PS português.

Que está a acontecer?

O que faltava ao “PSD”? Aliar-se à extrema-direita, como o fez com o Chega de Ventura, na lei da nacionalidade que discrimina portugueses, na privatização de múltiplos sectores e deterioração do sector público na saúde, no ataque à recepção e ao trabalho dos imigrantes, na estagnação dos baixos salários, no favorecimento de baixos impostos aos grandes grupos económicos, na política de habitação para ricos, na educação e curricula conservadores, na pressuposta revisão constitucional.

São demasiadas coincidências. Transformou o “Não é não” prometido aos portugueses eleitoralmente, quanto à confluência com o Chega, em “Sim” com persistência. Depois de levar ao colo um CDS em abandono de princípios humanistas e via de extinção, o “PSD” alia-se à extrema-direita radical, xenófoba e racista, autoritária e populista, nacionalista e eurocética, que mais tarde atraiçoará os acordos com a direita moderada (AD) na ânsia de chegar ao poder governativo, como o diz abertamente, entre supostas “verdades” e mentiras.

Cai a máscara ao “PSD”. Abandonou a social-democracia progressista, é comandada por arrivistas, faz política de renúncia ao serviço público, aliou-se à extrema-direita que suprime liberdades, direitos e garantias.

Que mais está a acontecer? A juventude é atraída pelas contradições da sociedade que os condicionam ou premeiam em autoestima, por redes sociais que estigmatizam e coleccionam “likes”, por slogans de revolta primária e agressividade buliçosa, pelo canto da sereia dos cheganos em fantasias e poder autocrático.

É preciso voltar a avisar toda a gente, “dar notícia, informar, prevenir”. A liberdade não passa pelos seus detratores, a resistência, o sonho e a esperança não se esgotaram.

(*) Médico