Os cineclubes surgiram como espaços alternativos de cultura, memória e resistência. Com origens internacionais que remontam às primeiras décadas do século XX, os cineclubes floresceram em Portugal com um objectivo claro: criar espectadores críticos, divulgar cinema fora dos circuitos comerciais e promover o debate cultural, numa época marcada pela repressão e censura. Desde a década de 1950, que a cidade acolheu algumas das mais emblemáticas manifestações de cinema alternativo e independente, tornando-se um pólo de exibição, reflexão e formação em torno da sétima arte. No seu centro, destacam-se o papel do Cineclube de Coimbra e, mais recentemente, o impacto dos Caminhos do Cinema Português, festival que afirma Coimbra no contexto cinematográfico nacional.
Este mês de Setembro (até dia 26) a Casa do Cinema de Coimbra e a associação Caminhos do Cinema Português promovem o projecto Cinema Fora de Portas, com sessões gratuitas ao ar livre em vários pontos do concelho. A 5.ª edição da iniciativa leva mais de dez filmes a vários pontos do concelho.
Com o apoio da União das Freguesias de Coimbra, União das Freguesias de Eiras e São Paulo de Frades e União das Freguesias de Trouxemil e Torre de Vilela, todas as projecções têm início às 21:30 e entrada livre. A lotação é ocupada por ordem de chegada, sem qualquer tipo de reserva. A ideia é reforçar a relação entre cinema, território e comunidade, à velha maneira cineclubista, que tem em Coimbra parte da sua história.
As Origens: Cineclubismo como Espaço de Liberdade
Em Coimbra, este movimento teve uma expressão significativa com a criação, entre outros, do Cineclube Universitário de Coimbra (CUC), em meados da década de 1950, ligado à academia e ao espírito crítico dos estudantes da época.
Os primeiros cineclubes conimbricenses tornaram-se espaços de liberdade cultural e intelectual durante o Estado Novo. Exibiam filmes que dificilmente passariam nas salas comerciais — quer por motivos ideológicos, quer por critérios artísticos — e promoviam debates que desafiavam o conformismo e fomentavam o pensamento crítico. Projecções de cineastas como Eisenstein, Bergman ou Fellini criavam um terreno fértil para o diálogo entre a arte e a política, num contexto social marcado pela censura e pela vigilância.
O cineclubismo em Coimbra tornou-se, assim, uma das formas mais eficazes de resistência cultural. Não só permitia o acesso a obras fundamentais da história do cinema mundial, como contribuía para a formação estética e ética de gerações de estudantes e cinéfilos. O CUC, entre outros grupos informais, foi fundamental nesse processo, muitas vezes realizando sessões em condições precárias, mas com grande adesão.
Depois de Abril: Novos Caminhos
Com a Revolução dos Cravos em 1974, os cineclubes ganharam nova liberdade. Em Coimbra, o ambiente académico e cultural propiciou a continuidade e o surgimento de novas iniciativas. O cineclubismo manteve a sua função pedagógica e alternativa, mas com maior alcance e liberdade. Foram organizados ciclos temáticos, sessões especiais, colóquios e encontros que ligavam o cinema à literatura, à política, à filosofia e às artes plásticas.
A década de 1980 trouxe, no entanto, novos desafios — nomeadamente as mudanças tecnológicas. Muitos cineclubes, incluindo os de Coimbra, enfrentaram dificuldades financeiras e logísticas. Ainda assim, o espírito cineclubista resistiu, apoiado por uma comunidade de apaixonados pelo cinema que via nestes espaços uma alternativa à uniformização cultural.
Caminhos do Cinema Português: Um Festival com Identidade
Foi neste contexto de resistência e reinvenção que nasceu na década de 1990 o Caminhos do Cinema Português. Criado por estudantes da Universidade de Coimbra, o festival surgiu da necessidade de dar visibilidade à produção cinematográfica nacional e de promover uma nova forma de contacto com o público. Desde o início, o objectivo foi claro: mostrar o que de melhor se faz em Portugal em matéria de cinema, com uma programação abrangente, inclusiva e formativa.
O festival rapidamente se destacou por ser o único em Portugal exclusivamente dedicado ao cinema nacional. Ao longo dos anos, foi crescendo em dimensão, qualidade e prestígio. Hoje, é uma referência incontornável no panorama cultural português, atraindo cineastas, produtores, académicos e espectadores de todo o país. As sessões decorrem em vários espaços da cidade — desde auditórios universitários até salas independentes — e são sempre acompanhadas por debates, conferências e masterclasses.
Além da exibição de longas e curtas-metragens, o Caminhos tem uma forte componente educativa. Ao longo de mais de três décadas, o Caminhos do Cinema revelou novos talentos. Mais do que um festival, tornou-se um espaço de encontro entre gerações, um laboratório de ideias e um espelho da diversidade e criatividade do cinema feito em Portugal.
Cineclubismo hoje: Entre a Tradição e o Futuro
Em Coimbra, o cineclubismo continua vivo, embora com novos formatos. Associações culturais, colectivos de estudantes e grupos informais promovem sessões regulares, muitas vezes em colaboração com entidades como o Caminhos, a Universidade de Coimbra, a Casa das Artes ou espaços culturais alternativos. A cidade conserva uma rede informal de amantes do cinema.
Nos últimos anos, têm surgido iniciativas paralelas, como cine-concertos, cinema ao ar livre, sessões comentadas e ciclos temáticos. Há também uma preocupação crescente com a inclusão de novos públicos — especialmente jovens, migrantes e comunidades fora do centro — na lógica de um cineclubismo renovado e mais acessível.
A herança do Cineclube Universitário, a persistência dos grupos independentes e o impacto do festival Caminhos formam um ecossistema singular, onde o cinema é visto não apenas como espectáculo, mas como ferramenta de transformação cultural.
Coimbra, Cidade de Cinema
A história do cineclubismo em Coimbra é, em muitos sentidos, a história de uma luta pela liberdade, pela cultura e pela formação crítica. Desde os tempos da clandestinidade cultural até à institucionalização de festivais como os Caminhos do Cinema Português, Coimbra tem sido uma cidade onde o cinema encontrou sempre espaço para ser pensado, vivido e celebrado.
Num tempo em que os ecrãs se multiplicam e os conteúdos se dispersam, o cineclubismo — e particularmente o que se faz em Coimbra — recorda-nos a importância de ver cinema com tempo, em comunidade e com espírito crítico. Mais do que nunca, essas são qualidades que merecem ser preservadas e cultivadas.
Quanto ao cinema fora de portas, recomenda-se que o público chegue atempadamente ou, caso tal lhe seja impossível, traga uma manta ou cadeira portátil pois a lotação costuma esgotar. O ambiente descontraído permite que as famílias se instalem no local, criando um verdadeiro espírito de comunidade.
Ana Rajado
Texto publicado na edição em papel do Campeão das Províncias de quinta-feira, 25 de Setembro de 2025