As grandes cidades ainda concentram as principais oportunidades culturais, sociais e económicas. Mas, nos últimos anos, têm-se observado – ainda que pontualmente, alguns artistas trocarem os centros urbanos pelas paisagens e comunidades do interior do país. Trata-se de uma dinâmica que transcende preferências pessoais, mas que pode fortalecer territórios mais isolados, contribuindo para a descentralização das narrativas culturais.
Redescobrir o território
O “êxodo” artístico em direção ao interior reflete fatores como a procura de tranquilidade e qualidade de vida. Por outro lado, estas regiões – com casas amplas, ateliés rústicos, campos abertos para gravações ao ar livre, e um custo de vida mais baixo tornam-se muito atrativas.
Para muitos artistas, a vida urbana oferece estímulos constantes, mas também impõe ritmos demasiado desgastantes para a criação artística. No interior ainda é possível encontrar espaço, silêncio e paisagens que inspiram. Ganha-se em qualidade de vida e adquire-se tempo para criar sem urgência. Um luxo pouco acessível nas grandes cidades, onde o tempo é escasso.
Carlota Lagido e a associação Lugar do Meio, em Alfafar.
Carlota Lagido – bailarina, coreógrafa e figurinista é uma artista multidisciplinar que escolheu a aldeia de Alfafar (concelho de Penela) para sua casa e sede da associação cultural que preside, a par com Nuno Patinho, que a acompanha na direcção técnica.
Alfafar é um lugar – no concelho de Penela, serra de Sicó, improvável para a residência de uma artista multidisciplinar que já viveu em Nova Iorque, São Paulo, Luanda e Lisboa – cidade onde nasceu. No entanto, foi precisamente o sítio escolhido por Carlota para sede da Associação Lugar do Meio e sua casa.
Quem chega à pequena aldeia percebe a escolha. O silêncio e a tranquilidade permitem a introspecção criativa, e o contacto com a natureza revitaliza os sentidos. O lugar é pequeno, algumas casas ainda são de pedra – como a da Carlota. No topo da aldeia uma eira e um largo. É lá que o Sol repousa. Em volta a paisagem cársica característica daquela serra: carvalhos, oliveiras, vinhas e até orquídeas selvagens. É fácil descobrir onde mora a coreógrafa: cartazes colados nos vidros e pequenos símbolos que não reconhecemos noutras moradias.
A casa é uma construção de paredes de pedras grossas que proporcionam uma frescura deliciosa num dia de 35 graus. Foi no espaço comum da sala e cozinha que Carlota me recebeu. Ela e os seus três cães. Recebeu-me depois de uma tarefa incomum para uma bailarina – e que não poderia realizar na cidade: cuidar de uma cabra doente. Carlota tem vários animais, entre eles um cavalo lindo. Além da casa, no espaço exterior há uma eira e um terreno amplo com lugar para os animais e alguma vegetação. É na eira que se realizam algumas das actividades da associação: cinema, concertos e performances.
“O Lugar do Meio é um espaço de iniciativa privada numa aldeia envolvida por floresta e mata nativa, atravessada por muros de pedra seca em calcário. Os espaços de apresentação dos espectáculos incluem ambientes naturais, as eiras públicas e privadas, o Jardim da Preciosa e um estúdio interior”, refere Carlota, acrescentando: “a principal linha de atuação da associação centra-se na programação transdisciplinar regular, com especial enfoque na dança contemporânea e música improvisada em contexto de residência artística, através de apresentações de concertos e espetáculos que entrelaçam práticas rurais, tradicionais e ambientais de carácter coletivo. Cada apresentação constitui uma oportunidade de encontro com o público à volta da mesa, promovendo o debate, o pensamento crítico e o convívio.” O Lugar do Meio é, antes de mais, uma casa — um espaço habitado por pessoas, animais e artistas — e um lugar de celebração contínua. E isso percebe-se no ambiente acolhedor que Carlota proporciona. A experiência gastronómica – como forma de convívio e criação de laços – é um dos meios que a artista valoriza. A cozinha é um espaço central da casa e está meticulosamente equipada e recheada de verduras, legumes e frutas: o cheiro a café acabado de fazer numa cafeteira italiana faz-nos sentir que ali o tempo tem outro ritmo. Carlota é, sem dúvida, uma excelente anfitriã. De uma simpatia desconcertante. Conta-me que “o Lugar do Meio tem acolhido vários artistas e apoia ainda o trabalho regular de Anna Piosik, Francisca Manuel, Francisco Correia, Pietro Romani e Bárbara Lagido. Além disso, mantém parcerias regulares em contexto artístico e de partilha de recursos com estruturas como a Linha de Fuga, a Companhia da Chanca e a Blue House.”
Atualmente conta com apoios do Município de Penela e da Junta de Freguesia de Podentes. Infelizmente os apoios pontuais da Direcção-Geral das Artes não terão continuidade. O que pode ter um impacto importante num projecto como este. Carlota refere que “possivelmente a programação terá que ser redefinida”.
Entre as imensas actividades multidisciplinares promovidas pela associação, a relação com a comunidade é sempre central. Carlota salienta que foi muito bem acolhida e que tem criado laços importantes com os seus vizinhos. A associação tem realizado várias actividades que integram a comunidade. A importância destas iniciativas em territórios periféricos só é alcançada por quem os habita. A possibilidade de convívio com pessoas de outros lugares e experiências artísticas é um intercâmbio enriquecedor tantos para as populações locais como para os artistas.
Nesse sentido, a presença destes projectos no interior do pais devia ser valorizada e incentivada, para que haja continuidade, integração na comunidade e, eventualmente, a construção em rede de outras experiências culturais. Tal como acontece entre a associação Lugar do meio, Linha de Fuga, Companhia da Chanca e Blue House. Apesar de algumas dificuldades, nomeadamente na continuidade do acesso aos apoios à cultura, a bailarina veio para ficar. De tal forma que a família a foi acompanhado na mudança para região: primeiro a irmã – a também artista Bárbara Lagido (cantora) e depois os pais. O filho de Carlota, um adolescente de 16 anos, integrou-se na comunidade e é mais um jovem num lugar em que a tendência é para o envelhecimento da população.
Projectos culturais como polos transformadores locais
A chegada de um ou vários artistas a uma região interior muitas vezes impulsiona as dinâmicas culturais. Espaços que eram utilizados apenas como salões de festas ou feiras comunitárias ganham novos eventos: concertos, residências artísticas. O artista atua como catalisador de novas dinâmicas — não apenas cria, mas estimula outros a expressarem-se, a reunirem-se. É o que acontece em Alfafar, desde que a coreógrafa chegou à aldeia.
Com o tempo, regiões do interior que acolhem artistas podem conseguir posicionar-se no mapa cultural nacional, não apenas como “roteiros turísticos”, mas como polos de criação com voz própria. cenários inesperados que conectam comunidades às cidades maiores, atraindo olhares curiosos.
O interior como novo epicentro da arte criativa
A migração de artistas dinâmicos para o interior do país não é apenas uma migração geográfica, mas simbólica: desloca o epicentro da criação para territórios que carregam histórias vivas.
O artista deixa de ser apenas “autor isolado” e torna-se uma ponte — entre tradições e visões futuras, entre consumidores urbanos e públicos rurais. Como resultado, o interior deixa progressivamente de parecer um fim de linha e passa a ser uma rota na travessia da cultura contemporânea.
Ana Rajado
Reportagem publicada na edição em papel do Campeão das Províncias de 4 de Setembro de 2025