À Empresa Municipal Águas de Coimbra foi recentemente atribuído o “Selo da qualidade exemplar de água para consumo humano”. Uma boa notícia para os munícipes, sem dúvida, que atesta a qualidade da água que nos sai das torneiras todos os dias.
Em Bruxelas, a água da torneira satisfaz também exigentes critérios de qualidade. Oriunda de diversos locais de captação (o que torna a cidade mais resiliente, do ponto de vista do abastecimento de água, a incidentes técnicos nalgum dos locais de origem), a água é filtrada e tratada de modo a servir, com toda a qualidade necessária, para consumo humano.
Mas há um aspecto da água em Bruxelas que só quem vive na cidade pode experienciar em todo o seu esplendor: a dureza da água. Tanto em Portugal como na Bélgica, o principal factor a determinar a dureza da água é o carbonato de cálcio – a que vulgarmente chamamos calcário da água. Portugal tem, na maior parte do território, águas “macias”, embora a água tenha dureza acentuada nalgumas partes do Algarve e Alentejo, mas também no Oeste, junto à zona da Serra de Aire.
Em Bruxelas, se na distribuição doméstica final não for instalado um aparelho para diminuir a dureza da água, a mais ínfima gota caída dará origem, logo que seque, a uma mancha esbranquiçada. Os electrodomésticos ressentem-se: a chaleira, com o interior revestido de uma película branca de calcário, gasta mais energia e mais tempo para ferver a mesma água; a louça sai da máquina de lavar com manchas se não houver um uso generoso de sal na máquina; as caldeiras de aquecimento das águas domésticas (indispensáveis para manter o aquecimento central durante o longo inverno belga) avariam e alguns fornecedores ameaçam com perda de garantia se não for instalado um amaciador de água antes do sistema da caldeira; as torneiras deixam de deitar água e passam a esguichá-la, quando as saídas estão já razoavelmente obstruídas pelo calcário. Destarte, a utilização de um amaciador de água torna-se praticamente um imperativo na capital belga. E, embora ajudando, não resolve tudo. O remanescente, à vista em manchas de calcário em casas-de-banho e cozinhas, faz do vinagre o produto de limpeza que não pode faltar em qualquer despensa de Bruxelas. O paladar também se ressente. Embora a água de Bruxelas seja de boa qualidade e perfeitamente potável, estamos longe da tríade “insípida, inodora e incolor”. Cor e cheiro, de facto, não tem, mas bebê-la não é o mesmo que beber uma das muitas águas de nascente de Portugal. E quem quiser ver com os próprios olhos quanto calcário tem esta água, basta fervê-la: pela acção do calor, formam-se depósitos de carbonato de cálcio à superfície da água, criando uma finíssima película que, à primeira vista, se assemelha a pó de giz a cobrir a água.
Da próxima vez que alguém em Coimbra ferver água, aproveite para ver o que lá não está: com uma dureza tão baixa, a água da Lusa-Atenas sabe bem melhor do que a de Bruxelas.