Sempre que o Baixo Mondego sofre cheias, a barragem de Girabolhos regressa ao debate público como resposta pronta. A repetição do argumento não o torna mais convincente. Fala-se de uma infraestrutura antiga, assente numa declaração de impacto ambiental de 2016, como se ela pudesse corrigir de uma vez só décadas de assoreamento, erosão, falta de manutenção e erros de engenharia e de ordenamento do território. Mas os acontecimentos recentes mostram uma realidade bem mais complexa.
As cheias de 2026 tornaram evidente que o problema não está apenas a montante. Aos efeitos adversos dos incêndios de 2025 somam-se vulnerabilidades antigas da bacia e falhas persistentes na gestão da planície aluvial. Girabolhos, situada a mais de 70 quilómetros das zonas mais atingidas, teria sempre um efeito parcial. A própria ministra do Ambiente o reconheceu em Coimbra. Ainda assim, o nome da barragem continua a ser convocado como se bastasse pronunciá-lo para transformar uma paisagem vulnerável num território seguro.
Também convém recentrar o debate na escala real dos factos. Num país que registou 16 mortes no chamado comboio de tempestades, 14 resultaram do temporal e de acidentes posteriores, não de afogamentos no Baixo Mondego. Em Coimbra, a RTP reportou que não houve mortos nem feridos, que a Baixa não precisou de ser evacuada e que a rutura do dique atingiu sobretudo campos agrícolas. Os danos foram sérios, sem dúvida, mas sobretudo materiais. Isso não os diminui. Apenas impede que se fabrique uma narrativa de catástrofe total em Coimbra e no Baixo Mondego para justificar, sem o devido escrutínio, uma grande obra pública.
Os próprios dados relativos às evacuações exigem maior prudência. Em Coimbra, menos de cem pessoas terão sido levadas para escolas sem que nenhuma delas viesse a ter a casa inundada. Mais delicado ainda é o caso dos lares de Bencanta-São Martinho do Bispo. Com soleiras acima da cota 21,60 m, segundo andar à cota 24,60 m, a cerca de 700 metros do rio, e tendo o nível da água ficado abaixo dos 14,5 m, importa perceber por que razão se avançou para uma evacuação noturna, forçada e com grande impacto psicológico e logístico. Segundo informações confirmadas, pelo menos quatro idosos precisaram de tratamento médico. Um deles permaneceu internado por várias semanas. Tudo isto pede reflexão séria sobre proporcionalidade, risco e responsabilidade.
Quem vive junto ao rio, aliás, falou com mais lucidez do que grande parte do ruído político. Em Formoselha, moradores disseram à Lusa que contam com as cheias “todos os anos”. Não exigiam milagres. Pediam manutenção, apoio e previsibilidade. Em Soure, em Ereira, no concelho de Montemor-o-Velho, e noutras zonas do Baixo Mondego, a cheia faz parte de uma experiência territorial antiga de resiliência comunitária. Em 2026, as populações responderam com solidariedade e presença no terreno, em articulação com líderes autárquicos e a proteção civil, enquanto a água se manteve durante mais de uma semana junto das casas. Isso não apaga a exposição ao risco e as vulnerabilidades. Mostra apenas que o território não é abstrato e que o risco pode e deve ser mitigado localmente.
A contradição política torna-se ainda mais evidente ao se observar o que aconteceu depois. Poucos dias após as cheias de fevereiro de 2026, o executivo de Coimbra aprovou a suspensão parcial do PDM para “dinamizar as frentes ribeirinhas”, ao mesmo tempo em que prosseguia o Plano de Pormenor da Estação de Coimbra, que prevê torres de 14 andares na planície de inundação do Mondego. Ou seja: invoca-se Girabolhos em nome da segurança, mas admite-se a densificação urbana de área condicionada pela cheia e pela Reserva Ecológica Nacional. A incoerência é difícil de disfarçar.
Mas o erro maior talvez seja outro: olhar o Baixo Mondego apenas como um problema hidráulico. Não é. O Parque Patrimonial do Mondego mostrou há muito que o rio entre a Aguieira e a Figueira da Foz é uma paisagem cultural, feita de pauis, arrozais, diques, comportas e também de lavadeiras, pescadores, barqueiros, agricultores e tradições orais. Girabolhos não seria neutra. Transformaria o território, afetaria a biodiversidade e colocaria em risco património material e imaterial.
A resposta séria está noutro lugar: limpeza e reforço dos diques, manutenção do canal de rega, revisão dos taludes da A1 em zona inundável, reavaliação dos pontos de contacto entre aterros, pilares da autoestrada e diques do Mondego e de outros rios, mais espaço para a água e apoio técnico e financeiro às comunidades ribeirinhas. O Baixo Mondego precisa de cuidados continuados, de conhecimento local e de governo do território com autarquias e populações no centro. Não precisa de mais uma ilusão remota, chamada Girabolhos, decidida nos distantes gabinetes da APA em Lisboa.
Uma petição subscrita pela GEOTA, pela LPN, pela ZERO e pelo movimento ClimAção Centro recolhe assinaturas para levar o assunto ao Parlamento. Petição: Supendam a barragem de Girabolhos no Mondego
(*) Professor de Arquitectura e Adaptação às Alterações Climáticas da Universidade da Beira Interior e Coordenador do Projecto do Parque Patrimonial do Mondego