Um estudo científico, divulgado pela Escola Superior de Enfermagem da Universidade de Coimbra (ESEUC), revelou que os cidadãos portugueses têm uma visão anacrónica da profissão de enfermeiro, o grupo profissional mais numeroso no sistema de saúde.
Os professores da ESEUC Luís Batalha, Isabel Fernandes e Paulo Alexandre Ferreira e o investigador José Miguel Seguro, autores do estudo “(Re)Conhecimento Social dos Enfermeiros – Percepções na sociedade portuguesa”, referiram que os resultados “reflectem uma realidade paradoxal”.
Embora os enfermeiros “sejam amplamente reconhecidos pela sua empatia, profissionalismo e dedicação, sendo frequentemente descritos como cuidadosos, atenciosos e empáticos, essa imagem positiva não tem correspondência proporcional no reconhecimento social e na valorização da profissão”, sublinhou a equipa científica.
A esse propósito, os investigadores defenderam que é preciso comunicar melhor a profissão e os múltiplos papéis que os enfermeiros desempenham.
De acordo com alguns dados divulgados, os enfermeiros portugueses “não são considerados submissos nem autónomos, nem seguidores ou líderes, ficando a meio caminho nestes descritores opostos”.
Dos 296 inquiridos no estudo – 29,1% dos quais profissionais de saúde – 61,5% disse não concordar ou não concordar nada com a opinião de que enfermeiros e enfermeiras podem tomar decisões autonomamente, ou seja, apenas uma baixa percentagem pensa o contrário.
Também a capacidade de investigação daqueles profissionais é, para os inquiridos, diminuta, o que traduz, segundo os autores da ESEUC “uma visão anacrónica da profissão, ainda associada ao cumprimento de tarefas e não à tomada de decisão clínica fundamentada”.
No entanto, os portugueses inquiridos, têm opinião positiva sobre os enfermeiros, que qualificam como profissionais atenciosos (84,4%), simpáticos (83,8%), calorosos (77,7%) e empáticos (74%).
A esmagadora maioria das respostas (84,5%) está ainda de acordo com a ideia de que “a profissionalização da enfermagem está a aumentar”, fruto de um “desenvolvimento cada vez maior dos seus conhecimentos e competências”.
O mesmo já não sucede quanto à “alta atractividade da profissão” (58,5% concordam ou estão totalmente de acordo com esta asserção), embora os portugueses inquiridos tenham respondido maioritariamente (65,9%) que encorajariam os filhos a estudar enfermagem.
Já quanto à comparação com outras profissões, numa classificação segundo o prestígio socio-económico (numa escala de 1 a 10 pontos), a amostra coloca os enfermeiros (7,5) quase ao mesmo nível que os advogados (7,8), os engenheiros (7,7) e os professores (7,3).
A forma como a enfermagem é valorizada em termos de reconhecimento social está para a maioria (72,6%), dos inquiridos “abaixo do que deveria ser”, o mais baixo de quatro níveis.
O estudo nacional divulgado, cujos resultados vão ser aferidos até 2031, enquadra-se no projecto internacional “EQUANU – Equality in social and professional recognition of nurses”, liderado pela universidade de Antuérpia (Bélgica).
Este projecto pretende investigar, nos próximos cinco anos, a evolução da imagem social dos enfermeiros em dez países na Europa: para além de Portugal e da Bélgica, participam instituições da Alemanha, Eslovénia, Espanha, Grécia, Itália, Noruega, Países Baixos e República Checa.