Sempre gostou de se ver rodeada de livros. Apesar de ter uma formação académica ligada às ciências, Sofia Correia nunca escondeu a necessidade de estar envolvida com obras ilustradas. Assim, após deixar o emprego que exercia na área da Consultoria Ambiental, optou por um caminho diferente que pudesse mudar não só a sua vida como a da própria comunidade conimbricense. É desse desejo que nasce a “Faz de Conto” uma livraria independente especializada em livros ilustrados e pop-up. Localizado no Parque Verde, na margem esquerda do Mondego, o espaço desenvolve diversas actividades com vista a promover o gosto pela leitura junto das famílias.
Campeão das Províncias [CP]: A Faz de Conto é uma livraria independente. Este projecto pretende dar voz à cultura em Coimbra?
Sofia Correia [SC]: Sim, esse é muito o papel das livrarias independentes: não se deixam ficar por ser uma loja de livros. Acabam por ser focos culturais nas cidades onde estão inseridas. Neste caso, em Coimbra, a Faz de Conto pretende ser um pólo agregador cultural, sem dúvida. Acredito mesmo que uma livraria independente pode fazer essa diferença numa cidade.
[CP]: Em termos de oferta, o que é que podemos encontrar na Faz de Conto?
[SC]: A maior parte dos livros são livros ilustrados: livros sem texto, banda desenhada, livros para bebés, mas para todas as idades, na verdade. Nós acreditamos que as obras não devem ter uma categorização por idade, porque, se um livro for bom, em princípio, é bom para qualquer idade. E, portanto, temos muitos livros por onde escolher em várias línguas, como inglês, espanhol, italiano, francês, eslovaco, checo… Também já tivemos livros em árabe e em holandês. Para além disso, também
[CP]: Há, por vezes, a ideia de que livros ilustrados são para um nicho?
[SC]: Eu considero que podem ser para todos. Talvez se pense que é para um nicho, porque não há tantas pessoas adultas despertas para isso. Como nós temos as famílias, acabamos por abranger muita gente, mas, depois, os adultos que se interessam não são a maior parte da população. Às vezes também é um bocadinho o preconceito que existe e não é só nos adultos. Até em crianças um bocadinho mais velhas, pré-adolescentes e adolescentes, que como liam os livros ilustrados quando eram pequenos, acabam por associá-los a uma fase da sua vida mais precoce. E, se calhar, tendem a afastar-se um bocadinho dos livros ilustrados, digamos, porque depois já querem outros géneros de literatura. Mas, realmente, acreditamos que cada livro pode tocar-nos de uma maneira diferente ao longo da nossa vida. Quando somos bebés interpretamos de uma certa maneira, quando começamos a ler autonomamente conseguimos ver a história noutra dimensão. Quando somos adultos e adolescentes, como já tivemos uma série de experiências na nossa vida, acabamos por conseguir ler outras camadas em cada livro ilustrado.
[CP]: Também nas vossas iniciativas, vocês têm esse propósito de quebrar este estigma?
[SC]: Nós tentamos quebrar essa ideia. Temos actividades como o “Clube do Livro Sem Idade”, em que os adultos são convidados a olhar para livros ilustrados, supostamente infantis, e explicar ao grupo porque é que gostam deles, porque é que lhes tocou, porque é que gostam daquele autor. Portanto, nós tentamos sempre desconstruir esse estigma que existe, às vezes, no livro ilustrado, de que é só para crianças, ou é um nicho. É, realmente, para todas as idades.
[CP]: E sentem que têm correspondido a esse propósito?
[SC]: Sim, sentimos. É claro que existe sempre alguma dificuldade na divulgação das actividades, mas conseguimos criar, ao longo destes oito anos, uma comunidade que também nos apoia. Tanto adultos, como famílias, como professores e bibliotecários. Um pouco até por todo o país, não só de Coimbra, mas de todo o país e de outros países, inclusivamente. Há quem venha a Coimbra especificamente para ir à Faz de Conto. Por isso, acho que temos conseguido quebrar um bocadinho esse estigma.
[CP]: Sentem que também devolvem esta proximidade entre livreira e comunidade?
[SC]: Sim, sem dúvida. O mercado do livro, de uma forma geral, está saturado no que diz respeito à quantidade de livros que saem por mês. São milhares, de quase todos os géneros. Um livreiro pode fazer toda a diferença no aconselhamento e na orientação dos leitores. São tantos livros que as pessoas não sabem o que escolher e nas livrarias independentes, como também são de menor dimensão, acabamos por conseguir fazer isso mesmo: aconselhar as pessoas. Este trabalho do livreiro, especificamente numa livraria independente, acho que é muito importante para criar uma comunidade leitora saudável, no sentido de ler livros bons e adequados aos seus gostos. Portanto, numa livraria independente acaba por existir mais bibliodiversidade porque apostamos também em autores independentes, em editoras mais pequenas, em projectos de edição de autor que nem sequer chegam às livrarias grandes. Acaba por haver uma aposta tanto na comunidade regional, como também no país.
[CP]: Numa altura em que se fala tanto do digital, essa proximidade com as famílias também é importante para que possamos tirar as crianças de casa e incentivá-las a ler?
[SC]: Sim, totalmente. Eu acho que as livrarias são muito importantes para quebrarmos essas dificuldades que as famílias estão a enfrentar. Por isso é que também fazemos as actividades, para criar uma rotina de ligação com o livro. Todas as semanas, praticamente, temos sessões de histórias para famílias, em que também não colocamos idade. Portanto, podem vir, desde os bebés até aos adolescentes e aos adultos, ouvir histórias. Acho que essa rotina também ajuda a manter o gosto pela leitura e a ligação às livrarias.
[CP]: Algumas das vossas iniciativas abordam questões temáticas como, por exemplo, o 25 de Abril. É importante promover a literatura como uma construção do pensamento?
[SC]: Sim, sem dúvida. Ao longo do ano, fazemos vários eventos e temos, por exemplo, uma prateleira das histórias pela paz, que, basicamente, é uma selecção de livros que falam sobre estes temas: a paz, tolerância, direitos humanos, migração, democracia,… e que nós acreditamos que, se nós falarmos destes temas com os miúdos, eles se tornarão pessoas tolerantes ou, pelo menos, que conseguem ver o ponto de vista da outra pessoa.
[CP]: Do ponto de vista da Sofia, enquanto livreira, o que é que sente ao motivar o outro a ler?
[SC]: Escolher o livro certo, para o momento certo e para a pessoa certa, para mim, é o pico da minha felicidade. Os livreiros são uns leitores de pessoas, porque nós lemos a pessoa e tentamos perceber o que é que ela quer naquele momento, o que é que ela precisa.
[CP]: A Faz de Conto também oferece a possibilidade de qualquer pessoa se colocar no papel de um livreiro…
[SC]: Sim, eu criei essa experiência, porque eu própria adoraria fazer isso noutras livrarias. Em Portugal, pelo menos quando eu a criei, não existia mais nenhuma experiência dessas. E é tão giro, porque a maior parte das pessoas que o faz são pessoas que já gostam muito de livros, naturalmente. A experiência na livraria acaba, por um lado, por desromantizar a ideia do que é trabalhar numa livraria. Por outro lado, as pessoas percebem o quão bonita pode ser esta profissão. Também é bom para perceberem a energia que existe numa livraria e essa ligação com os leitores e com a comunidade. E, claro, uma das melhores partes para quem gosta de livros e trabalha numa livraria é ver obras novas a chegar. Também dou essa possibilidade às pessoas.
[CP]: A livraria garante que pretende “ser o espaço onde as histórias ganham vida e a criatividade floresce”. É isso que querem continuar a ser no futuro?
[SC]: Sim, sem dúvida. Eu acho que o que nós pretendemos é mudar a vida das pessoas para melhor. Se as pessoas estiverem mais felizes e mais em paz isso acaba por influenciar tudo o que está à volta delas. Portanto, é esse o nosso lema.
[CP]: Acaba por fazer florescer a própria cidade?
[SC]: Sim. Nós vamos deixando pequenas sementes em cada pessoa através dos livros e das histórias, e as pessoas vão florescendo e a cidade acaba por ser um jardim.
Entrevista: Cátia Barbosa (Jornalista do “Campeão” no Porto)