Coimbra  24 de Abril de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Joana Gil

Fonte de alegria

24 de Abril 2026

Já estamos em Abril e o cinzentismo do céu de Bruxelas vai dando lugar a cada vez mais Sol e azul. A subida das temperaturas e a omnipresença da luz desde bem cedo até muito tarde conferem à cidade um ambiente mais descontraído – quase ocorre a palavra “estival”, que só por exagero aqui se empregaria – e soalheiro. Convida aos passeios, às esplanadas e aos terraços. A Natureza está já bem desperta, há ruas cobertas com tapetes cor-de-rosa de pétalas de flores caídas das árvores, as aves migratórias começam a instalar-se na cidade, as nuvens já não constituem na íntegra o céu, mas são antes recortes contra o azul lá do alto.

É nesta altura do ano – na verdade, em finais de Março – que as fontes voltam a cantar. Durante metade do ano, as fontes ornamentais da cidade (todas elas alimentadas artificialmente) entram numa espécie de hibernação. São desligadas e têm lugar os trabalhos de manutenção e reparação. Há que limpar os depósitos de água que as alimentam, libertá-los de folhas de árvore, detritos diversos, desobstruir condutas, reparar eventuais partes partidas ou dar retoques de pintura. Para assegurar este trabalho, a cidade de Bruxelas dispõe de uma equipa especializada de seis homens dedicados à reparação e manutenção de fontes e chafarizes. Antes da chegada da Primavera, há que alimentar os reservatórios com a água que depois será dispensada pela cidade de forma mais ornamental ou utilitária.

Com as tecnologias mais recentes a água pode ser apreciada em diversos formatos e apresentações… Numa fonte de estilo clássico, brotando da parede de uma esquina na grande avenida De Brouckère, num estilo romântico jorrando de uma fonte redonda com uma pequena estatueta em frente à igreja de Sainte Catherine, ou saltanto em serpentinas bem coreografas, que sobem e descem em jactos semi-artísticos em frente à Bourse. A mais icónica das fontes belgas será sempre o Manneken Pis, o pequenino e enigmático menino que faz chichi eternamente numa fonte junto à Grand Place.

Mesmo sem que as pessoas disso tomem consciência, as fontes emprestam à cidade um canto natural no meio da zumbideira do tráfego e do bruaá dos transeuntes. A musicalidade das fontes, mesmo sem nos apercebermos, devolve um pouco da Natureza à selva urbana. Não temos de contemplar, beber ou brincar com a água para a sua presença tornar o espaço urbano mais agradável. Numa cidade onde a água cai tão regularmente do céu, sabe bem ouvi-la cantarolar cá em baixo, bem organizada, sem ameaçar abater-se sobre nós.

Coimbra tem belíssimas fontes, a minha preferida sendo a Fonte do Tritão, no Jardim da Sereia – melhor se diria, Parque de Santa Cruz. Ter a Fonte da Nogueira à disposição sem ser necessário alimentar um reservatório artificial é um privilégio de que os conimbricenses nem se apercebem. As fontes são património – não apenas a estatuária, a estrutura, mas a própria água em si a jorrar. Cuidar desse património natural (e, no caso da Sereia, também arquitectónico, cultural e histórico) é um dever da cidade.