O Município de Condeixa-a-Nova inaugura no sábado uma mostra de livros apreendidos pela PIDE no concelho, que conta a história da audácia cultural e da repressão política durante o Estado Novo.
A exposição, intitulada “Uma biblioteca móvel incomoda muita gente”, estará patente na Biblioteca Municipal Eng.º Jorge Bento até dia 16 de Maio.
“Esta exposição é um tributo à coragem de quem, em tempos de silêncio, acreditou que o acesso à cultura era um direito inalienável”, afirma a presidente da Câmara de Condeixa-a-Nova Liliana Pimentel.
Segundo a autarquia, na década de 1940, foi criada uma “biblioteca móvel” por um grupo de jovens condeixenses – João Ribeiro, Fernando Geraldo, Mário Varela e Miguel de Araújo -, para colmatar a inexistência de uma biblioteca pública na vila, cujos livros circulavam entre residências.
O projecto, financiado por doações de particulares de livros, pelos leitores e pelas receitas de um baile realizado no Clube Condeixa, seria denunciado pelo então vice-presidente da Câmara, Fernando Rebelo, com a PIDE a iniciar um processo de averiguações que culminou, em 1949, em interrogatórios e na apreensão total do espólio. Dos 150 volumes originais foram recuperados recentemente 143, depois de décadas sem se conhecer o rasto destes livros.
Para a autarquia, esta exposição é, além de uma mostra bibliográfica, “o reencontro da comunidade com uma memória de resistência”, quando “a Biblioteca Móvel de Condeixa representava uma das raras formas de resistência, tal como a venda de livros ‘debaixo do balcão’ ou as redes clandestinas de leitura”.
“Devolver estes livros a Condeixa, precisamente no dia em que celebramos a Liberdade e o aniversário da nossa Biblioteca Municipal, é um ato de grande simbolismo e de justiça”, acrescenta Liliana Pimentel.