Coimbra  19 de Abril de 2026 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Abril, saudades mil – opinião de Hernâni Caniço

17 de Abril 2026

Anos a fio escrevi sobre o 25 de Abril e, como faço parte da história, como foram conquistadas a liberdade e a democracia, que hoje são subalternizadas, desvalorizadas e denegridas, por muitos daqueles que delas beneficiaram, vezes sem conta para ascensão ao poder, para ganho secundário em finanças, bens e especulação, ou para iludir, manipular e usar a sua e novas gerações de desencanto controlado.

Após 52 anos, um partido neofascista atinge um 1/4 dos eleitores, constituído por saudosistas mas do regime da ditadura, alguma escória da sociedade passando pelos pingos da chuva e por muitos cidadãos que estão desiludidos com o comportamento dos políticos tradicionais da III República, estão revoltados com os escândalos dos “tachos” e “jobs for the boys” (and girls) sem concursos, com actos encenados ou nomeação despudorada, ou estão frustrados por não passar da cepa torta da sua vida.

A juventude é literalmente massacrada pelas novas tecnologias de propaganda da ideologia chegana, pelo incentivo ao ódio por quem é diferente na atitude, na naturalidade ou na raça (sem perceber que a única raça é o ser humano), pela insídia, escárnio e maldizer se não é atraído pela “moda”, pela segregação se não adere à futilidade, aos correligionários e ao seu poder.

O espírito do 25 de Abril não está mascarado, não deve ser escondido, não está em vias de extinção, não pode submeter-se a populistas e demagogos (que desVentura…) e até a criminosos que não foram julgados (vide a morte do Padre Max e Maria de Lurdes), por mais lugares que ocupem, por força que tenham, por verborreia que destilem, por mentiras que propaguem, por ilusões que criem.

Mas o que resta do 25 de Abril? Resta a liberdade de expressão que não conseguem apagar, o direito à palavra e à opinião, a livre circulação de pessoas e sua organização, a ausência de censura prévia e de castigo corporal por “subversão”, a melhoria das condições de vida embora insuficiente, o combate à pobreza e à desigualdade, uma construção jurídica de direitos, liberdades e garantias.

Resta assim a Constituição, que os neofascistas acolitados pelo governo democrático que perdeu o norte aos direitos humanos e desistiu da social-democracia, querem deturpar na simbologia da inclusão e na condição humana da dignidade, dos valores humanistas, dos preceitos solidários e do progresso sustentável e filantrópico.

Não quero ver a chegada da extrema-direita neofascista ao poder legislativo (lembra a Assembleia Nacional), executivo (lembra os governos de Salazar a Caetano) e judicial (lembra os tribunais plenários e a PIDE).

Não quero ver alguém vil, desprezível e inescrupuloso a governar-nos, por desVentura e desdita (nem como Putin ou Kim Jong-un), que tem como amigos e exemplos execráveis de vida política (Trump, J. D. Vance, Viktor Órban, Marine Le Pen, Javier Milei e outros ditadores), que invoca 3 Salazares a ressuscitar (assassino de Humberto Delgado), que diz “que se lixe Montenegro”, “é frouxo e morno” (e depois faz acordos com ele).

O povo português tem a palavra. Quer Abril e a liberdade, ou vai no canto da sereia de um oportunista, que descobriu a árvore das patacas na megalomania, e quer a ditadura, o ódio e a morte? Quer Abril e a democracia, em melhoria contínua, ou quer a rotura, como diz o desventurado “encostem-nos à parede” e “se não saírem a bem saem a mal”? Quer a justiça social (ainda não atingida), ou quer uma bancada de deputados do Chega a contas com a justiça?

Eu escolho Abril, do qual tenho saudades mil.

(*) Médico