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João Gouveia Monteiro: “Prevenir guerras começa na forma como fazemos a paz”

8 de Março 2026 Jornal Campeão: João Gouveia Monteiro: “Prevenir guerras começa na forma como fazemos a paz”

João Gouveia Monteiro é uma das figuras mais destacadas da historiografia portuguesa contemporânea. Professor Catedrático na Universidade de Coimbra, João Gouveia Monteiro construiu uma carreira académica de excelência, dedicando-se ao estudo rigoroso da História, em particular da Idade Média e da arte da guerra, iluminando a anatomia dos conflitos que moldaram o nosso passado. Para além do seu contributo científico, o Professor assume actualmente a Direcção da Academia para o Encontro de Culturas e Religiões, onde a sua missão transcende a análise do conflito e se concentra na construção de pontes: promovendo a literacia religiosa, o diálogo intercultural e o entendimento entre povos. Se a História nos ensina as causas das rupturas, é também através dela e do trabalho de pensadores que podemos procurar caminhos de tolerância e convivência num mundo plural.

 

Campeão das Províncias [CP]: Comecemos então pela actualidade, com o ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irão e a guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Como é que vê, hoje, o quadro dos grandes conflitos?

João Gouveia Monteiro [JGM]: Olho para esta realidade com profunda apreensão. A História da Humanidade mostra-nos que o fenómeno da guerra acompanha o Homo sapiens desde os primeiros registos escriturados: somos extraordinariamente capazes de fazer a guerra e, lamentavelmente, pouco hábeis em fazer a paz.

Mais do que reagir aos acontecimentos, creio que é tempo de revisitarmos os grandes pensadores que procuraram contrariar as tendências belicistas, de Kant a Rousseau, entre outros e de aprendermos, como Cícero nos lembrava, que a história é mestra de vida. Só compreendendo o passado e os seus erros podemos aspirar a prevenir novos conflitos.

Mesmo no século XX, tão recente nas memórias das nossas famílias, vemos um exemplo claríssimo: a Segunda Guerra Mundial não surgiu do nada, mas foi, em grande medida, consequência da humilhação imposta à Alemanha pelo Tratado de Versalhes, em 1919. Essa imposição radicalizou contextos internos e acabou por ser um dos factores que abriu caminho ao nacional-socialismo e à catástrofe que se seguiu.

 

[CP]: Num mundo marcado por conflitos, o diálogo inter-religioso é uma necessidade urgente ou apenas uma utopia académica?

[JGM]: Não há dúvida de que o esforço pela construção da paz deve ir muito além das instâncias governamentais. Vivemos um tempo em que intervenções militares, dos Estados Unidos ao Irão, na Ucrânia ou em Gaza, parecem ocorrer à margem da ordem internacional que emergiu após a Segunda Guerra Mundial e da qual as Nações Unidas eram o garante. A impotência prática das instituições multilaterais é hoje dolorosa de constatar, mesmo quando lideranças com um profundo humanismo, como a do Secretário-Geral da ONU António Guterres, insistem, por vezes solitariamente, na defesa de uma resposta concertada e humana aos grandes desafios globais.

É por isso que o compromisso pela paz não pode ficar circunscrito ao poder político: cabe também à sociedade civil, em toda a sua pluralidade, promover o diálogo intercultural e inter-religioso. Este é um campo onde não só as ideias importam, mas também as práticas que aproximam comunidades e crenças, e cidades como Coimbra têm muito a oferecer nesse diálogo fecundo.

 

[CP]: A religião continua a dividir ou pode aproximar as sociedades contemporâneas?

[JGM]: Como historiador, não considero que as religiões sejam, na sua essência, fontes de divisão, nem creio que existam verdadeiras “guerras religiosas”. Esta ideia pode parecer provocadora, mas decorre do estudo atento do fenómeno religioso: as religiões são tecnologias espirituais criadas pelo ser humano para tornar o mundo mais habitável e para enfrentar o grande enigma da nossa condição: a morte.

O Judaísmo, o Cristianismo e o Islão, bem como o Hinduísmo, o Budismo e o Confucionismo procuram, na sua génese, suscitar o melhor do ser humano, promover a auto-superação e responder à pergunta essencial da convivência: como viver juntos? O problema surge quando os fortes sentimentos de pertença que as religiões geram são apropriados por quem transforma a fé em ideologia. Foi o que aconteceu no assassinato de Yitzhak Rabin, cujo autor afirmou ter sido movido por Deus, exemplo claro de instrumentalização religiosa.

Por isso, mais do que guerras religiosas, devemos falar de guerras feitas em nome da religião. Veja-se Gaza: à superfície, poder-se-ia supor uma incompatibilidade entre Judaísmo e Islão. Contudo, historicamente, tal não procede. O Islão nasce do tronco abraâmico; Maomé reconhece os profetas bíblicos, considera Jesus um profeta e afirma, no Alcorão, que o Deus dos judeus, dos cristãos e dos muçulmanos é o mesmo. A História mostra-nos, portanto, que estas tradições são religiões irmãs. O conflito não reside na essência da fé, mas no uso que dela é feito.

 

[CP]: A APECER nasceu em 2020, na Universidade de Coimbra. Que vazio institucional veio preencher e por que razão afirma que não existe outra entidade semelhante no panorama universitário português?

[JGM]: Tanto quanto sei, não existe, de facto, outra estrutura idêntica no ensino superior português. A APECER, um projecto especial da Reitoria da Universidade de Coimbra, nasceu para responder a uma necessidade que considero universal: promover o diálogo intercultural e inter-religioso de forma estruturada e académica.

Coimbra não foi um acaso. A cidade possui uma longa tradição histórica de convivência entre culturas. Basta recordar a figura de D. Sesnando Davides, que governou a região após a conquista de Coimbra por Fernando Magno, em 1064. Coimbra foi, ao longo da sua história, ponto de encontro entre mundo cristão, muçulmano e judaico e essas marcas permanecem.

Mas há também uma razão contemporânea decisiva: a Universidade de Coimbra é hoje uma instituição profundamente internacionalizada, com cerca de 20% de estudantes estrangeiros, provenientes de mais de uma centena de países. Estes jovens trazem consigo referências culturais e religiosas diversas. A integração universitária não pode limitar-se à língua ou à preparação científica; exige também atenção ao equilíbrio humano, cultural e espiritual.

A criação, ou reintrodução, da disciplina de História das Religiões na Faculdade de Letras demonstrou isso mesmo. A procura superou largamente as expectativas, reunindo estudantes de múltiplas faculdades, interessados em compreender melhor o fenómeno religioso para interpretar o mundo contemporâneo.

Foi, portanto, da conjugação entre a tradição histórica da cidade e o grau de internacionalização da Universidade que nasceu a APECER.

 

[CP]: A Academia define-se como não-confessional. Na prática, como se ensina a compreender o fenómeno religioso sem ensinar religião?

[JGM]: Precisamente por sermos não-confessionais é que podemos abordar qualquer tradição religiosa com inteira liberdade e isenção. Não tomamos partido por nenhuma fé específica, o que nos permite organizar cursos e iniciativas sobre diversas religiões, promovendo sempre o confronto de perspectivas e o contraditório.

A estrutura da Academia é simples: um Presidente Honorário — o Padre Anselmo Borges —, um Director, três Subdirectores e um Conselho Consultivo composto por seis membros. Nesse Conselho estão representadas várias confissões religiosas, mas também pessoas agnósticas ou ateias que partilham o interesse pelo estudo sério do fenómeno religioso.

 

[CP]: O que podemos esperar este ano da APECER?

[JGM]: Desde a sua criação, realizámos 24 iniciativas, distribuídas por cerca de 60 sessões, mobilizando perto de 1.700 participantes e contando com 50 convidados externos. Metade do nosso público é exterior à Universidade de Coimbra, algo que muito prezamos: não falamos apenas para dentro.

Para esta Primavera, nos dias 5, 6 e 7 de Maio, teremos um novo encontro. No primeiro dia, serão apresentadas duas comunidades religiosas presentes em Coimbra: a Fé Bahá’í e a comunidade budista Tergar, ligada ao mestre nepalês Mingyur Rinpoche. No segundo dia, o nosso Presidente Honorário, Padre Anselmo Borges, falará sobre diálogo inter-religioso e o futuro da humanidade. No terceiro dia, será apresentado o livro Fernando Pessoa, o Sábio Árabe, de Fabrizio Boscaglia, que explora a profunda marca islâmica na cultura portuguesa, recordando a ideia de Fernando Pessoa de que a alma árabe integra o fundo da alma lusitana.

Aproveito para dizer que Coimbra poderia assumir a paz e o diálogo inter-religioso como verdadeiro desígnio de cidade, criando, quem sabe, um prémio e um evento anuais nesta área ou até um centro multirreligioso, como já existe em Lisboa. Seria um sinal claro de compromisso com a paz e com a convivência entre culturas.