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Maiorca: um tempo novo que nasce entre memórias

1 de Junho 2025 Jornal Campeão: Maiorca: um tempo novo que nasce entre memórias

 

Há lugares onde o tempo parece abrandar, para que a vida se possa reinventar com calma. Maiorca, vila de raízes profundas no concelho da Figueira da Foz, está a viver um desses momentos raros — quando a mudança chega sem apagar o que já foi, e o futuro se entrelaça com o que a memória guardou.

Maiorca está a transformar-se. Respira-se outro ritmo nas ruas, onde se cruzam sotaques e se trocam ideias, entre moradores antigos e quem aqui encontra, hoje, um lugar para recomeçar. O presente avança com passos firmes, mas o coração da vila continua a bater com a ternura de sempre — como se ouvisse, ainda, os ecos das vozes que a moldaram. Uma delas, para mim, será sempre a de Maria da Graça: mulher inteira, alma maiorquense, que amava este lugar com a doçura dos gestos simples e a força dos que nunca desistem.

Uma vila em movimento

Nos últimos anos, Maiorca tem caminhado com propósito. Sob a liderança de Rui Ferreira, a Junta de Freguesia tem promovido uma mudança que se nota — nas infra-estruturas, nos serviços, mas sobretudo no cuidado com as pessoas. “Tentámos criar condições para que as famílias escolham ficar, ou regressar. Continuamos a ter escola primária, jardim-de-infância e um sistema de alimentação próprio para os alunos, o que é raro e faz toda a diferença”, sublinha o autarca.

O sentimento de pertença reflecte-se em decisões concretas: a nova sede da Junta é hoje mais do que um edifício — é símbolo de um compromisso com a comunidade, albergando também os CTT e o futuro Espaço Cidadão. E há uma ambição que vai além do imediato: “Temos potencial para crescer. A paisagem, os campos de arroz, o nosso património — tudo aqui tem valor. Só temos de saber mostrá-lo”.

Arroz doce: o sabor que une

Mas é num gesto singelo que se revela, talvez, o pulsar mais íntimo desta transformação: a inauguração, a 7 de Junho, de um espaço dedicado à venda de arroz doce — o doce “maiorquense”, feito com mãos de tradição e alma de comunidade. No Largo da Feira Velha, todos os sábados, será possível saborear esta herança, num quiosque gerido rotativamente pelas 15 associações da freguesia.

“É muito mais do que arroz doce”, diz Rui Ferreira. “É identidade, é pertença, é dar expressão ao que somos. Nenhuma instituição recusou participar. Isso diz tudo sobre a vitalidade desta terra”. O espaço, integralmente financiado com receitas próprias da Junta, é o culminar de um sonho antigo: o de afirmar, de forma visível, um símbolo que é tão identitário.

A par do quiosque, será ainda inaugurada uma pequena área de homenagem à religiosidade local, junto à Capela do Senhor da Paciência — um reconhecimento sereno da espiritualidade que atravessa, de forma discreta mas profunda, a vida maiorquense.

Uma nova etapa — e uma nova posição

Com serenidade e sem proclamações grandiosas, Rui Ferreira confirma: será novamente candidato à presidência da Junta de Freguesia, afirmando uma escolha de consciência e fidelidade à comunidade. “Serei candidato. E será a população a avaliar, com liberdade, o que foi feito e o que ainda pode ser feito. Quem está na política local deve servir todos — sem excepção”.

A decisão representa um novo ciclo, alinhado com o espírito de mudança que Maiorca vive. Um tempo onde se valoriza o que se construiu, mas se olha com esperança para o que está por vir.

Um lugar de futuro

O horizonte está traçado: criar passadiços junto aos campos de arroz, abrir Maiorca ao turismo sustentável, continuar a reforçar os serviços de proximidade. E, sobretudo, concretizar um desígnio antigo: devolver vida ao Paço de Maiorca, que Rui vê como “o imóvel mais importante do concelho”. Seja para a cultura, o turismo ou outro fim que sirva a comunidade, aquele espaço pode — e deve — ser uma âncora de desenvolvimento.

Uma nova alma para uma vila antiga

Maiorca está a mudar. E não é só nas fachadas reabilitadas ou nos projectos que nascem em torno das suas tradições — é no pulsar quotidiano das suas ruas, onde se cruzam histórias de longe e raízes profundas. Rui Ferreira sente essa transformação nas pequenas coisas: nos bebés que agora preenchem os silêncios, nas línguas que se escutam nos cafés, nas casas outrora fechadas que renascem com novas vidas.

“Maiorca começa a ser escolhida. Por famílias, por criadores, por quem procura uma alternativa serena ao reboliço das cidades.” O tom é contido, mas não esconde a emoção. Rui vê essa chegada não como uma ameaça, mas como um reencontro com a vocação do lugar: acolher.

Yilan Zeng é exemplo disso. Arquitecta e artista chinesa chegou depois de anos entre Berlim e a China, procurando um território onde pudesse voltar a criar comunidade. Encontrou em Maiorca a terra que procurava: viva, generosa, estável. E está a semear ali, passo a passo, um novo futuro colectivo — onde a pertença não se mede em certidões de nascimento, mas em gestos de partilha.

A Junta tem acompanhado essa evolução com discrição, mas com convicção. As formações promovidas — desde horticultura até empreendedorismo — deverão agora incluir aulas de português para os recém-chegados e de inglês para os locais. “A melhor forma de convivermos é compreendermo-nos”, diz Rui. E esse desejo de convivência tem sido, aliás, a linha orientadora do seu mandato.

A escolha de se recandidatar, agora como independente com o apoio do movimento de Pedro Santana Lopes, surge nesse contexto. “Continuo a querer servir Maiorca, sem rótulos. É esse o meu compromisso”. A mudança de cor política não altera o foco: cuidar da freguesia com coerência e proximidade.

No meio de tantos rostos novos, há figuras que permanecem como pilares silenciosos. Maria José é uma delas. Técnica da Junta é muito mais do que isso: compiladora de memórias, guardiã da identidade local e ponte discreta entre gerações e culturas. O seu livro Pedaços de Maiorca é uma homenagem terna a um passado que não se quer perder. Mas é, também, uma semente lançada para que o futuro saiba de onde veio.

Esse futuro chega, também, com o mercado imobiliário em ebulição. As casas ganham novas vidas e passam de mãos num ritmo inesperado. “Maiorca tornou-se um pequeno fenómeno”, reconhece Rui. Imóveis antes desvalorizados são hoje restaurados com esmero por quem vê ali potencial, beleza e autenticidade. Há uma nova sensibilidade a descobrir o que antes era invisível — e isso, no fundo, diz muito sobre a fase em que a vila se encontra.

Mas se o betão e a tinta contam parte da história, é nas pessoas que se encontra o verdadeiro motor da mudança. O rosto mais visível desta nova Maiorca é, sem dúvida, colectivo. São as mãos que cozinham para todos nas festas, os jovens que ensaiam teatro na colectividade, os mais velhos que, com paciência e sabedoria, ensinam os nomes das árvores e o valor do arroz que nasce da terra.

É este tempo — o tempo de estar, de ser, de viver em comunidade — que a vila se recusa a perder. Porque o desenvolvimento não tem de atropelar a identidade; pode antes florescer a partir dela, respeitando-a e ampliando-a.

A terra, a água e o coração: pilares de um futuro com raízes

A ligação à terra continua a ser essencial. O arroz, mais do que cultura agrícola, é símbolo de resiliência. “Ele precisa de água, de paciência e de cuidado — exactamente como Maiorca,” compara Rui, que vê no trabalho dos agricultores uma metáfora para o renascimento da freguesia.

Há, por isso, uma vontade crescente de integrar práticas sustentáveis e inovadoras que honrem o passado e preparem o futuro. Projectos de permacultura, circuitos curtos de comercialização e até turismo regenerativo estão a ser pensados para reforçar a autonomia e o orgulho local.

O reencontro com o mundo, com os outros e com o essencial

Maiorca começa a ser falada — não como um lugar parado no tempo, mas como um exemplo de como se pode crescer sem deixar de ser. Como um território onde há lugar para o novo e para o antigo, onde a inovação pode brotar ao lado da tradição.

A arte, o asfalto, o associativismo, o arroz — tudo faz parte do mesmo tecido. Um tecido humano, resistente, feito de fios invisíveis que ligam as pessoas entre si e à sua terra.

E talvez seja isso, no fim, o segredo maior de Maiorca: a capacidade de acolher, de recomeçar, de se reinventar — sem nunca deixar de ser fiel a si mesma. Uma vila que não grita, mas que se faz ouvir pelo que constrói todos os dias: com coragem, com cuidado e com coração.

As associações e colectividades: motores do dinamismo local

Outro pilar da estratégia de desenvolvimento de Maiorca é a colaboração estreita com as associações e colectividades locais. O presidente da Junta reconhece o papel insubstituível que estas organizações desempenham na animação da freguesia e na preservação da sua identidade.

“Temos um tecido associativo vivo, com pessoas que dão o melhor de si, muitas vezes de forma voluntária, para manter tradições e dar resposta às necessidades sociais. Sem elas, não teríamos metade da vitalidade que temos”, refere.

Uma freguesia com identidade, pronta para novos capítulos

O percurso recente de Maiorca é marcado por resiliência, diálogo e acção. A freguesia, que já teve um passado marcante na agricultura, na indústria e na vida social da região, procura agora novas formas de afirmar a sua identidade no século XXI.

Para Rui Ferreira, o essencial é não perder a alma: “Não podemos deixar que Maiorca se descaracterize ou se torne apenas dormitório. Queremos uma Maiorca com alma, onde vale a pena viver, trabalhar, investir e envelhecer com qualidade”.

Entre as obras visíveis e os laços invisíveis que unem a comunidade, a mensagem é clara: o futuro de Maiorca constrói-se com memória, mas também com ambição. E essa construção, feita passo a passo, continuará a contar com todos os que acreditam nesta terra que, apesar de pequena em geografia, é gigante em história e coração.

A arte de reencontrar o lar

Entre os rostos que hoje se cruzam nas ruas de Maiorca — uns mais antigos, outros recém-chegados — há histórias improváveis que se entrelaçam com a do próprio lugar. Uma dessas histórias é a de uma arquitecta e artista chinesa Yilan Zeng que partilhou connosco (Campeão das Províncias), com enorme generosidade, a razão que a trouxe até aqui e o que a faz querer ficar.

Da China, passando por Berlim, até à Figueira da Foz

“Sou originária da China, mas vivi os últimos oito anos em Berlim”, começa por contar. Em tom pausado, vai revelando um percurso de vida marcado pela busca de um espaço onde seja possível criar e viver em comunidade, fora da lógica acelerada das grandes cidades. “Quando vivi na China, participei num projecto comunitário artístico, que acabou por ser demolido. Aquela experiência deixou uma marca profunda — criámos ali uma verdadeira família. Depois da destruição daquele espaço, muitos de nós espalhámo-nos pelo mundo, mas o desejo de reencontro nunca desapareceu”.

Berlim pareceu-lhe, durante algum tempo, uma alternativa promissora. Mas, ao chegar em 2017, percebeu que já era tarde: “Os preços subiram imenso. Para artistas, tornou-se incomportável. E na cidade, a forma de vida é completamente diferente daquela que eu tinha vivido no passado: vivíamos numa quinta artística, com espaço para a liberdade e experimentação”.

Foi então que a ideia de procurar uma vila renasceu. E Maiorca apareceu, quase por acaso, mas preenchendo todos os requisitos: “Precisava de uma vila próxima da terra, onde a vida fosse caminhável, com serviços essenciais por perto e com uma comunidade ainda viva. Maiorca encaixou nesses critérios”.

Um laboratório vivo de cultura e pertença

O que aqui se vive, para esta artista, é profundamente experimental. “É uma experiência a longo prazo. Ainda estamos na fase inicial. Por isso criámos uma residência artística com o mote ‘listening to the place’ — escutar o lugar. Convidamos artistas a viver aqui, a sentirem o espaço e, a partir daí, criar”.

O mural que hoje se destaca num dos edifícios da vila é, talvez, o exemplo mais visível do que tem sido feito. Foi pintado por uma artista convidada de Paris, que se deixou inspirar pela vivência local. Mas a fundadora do projecto realça que o trabalho vai muito além da pintura: “A arte é uma linguagem sem barreiras. Serve para criar pontes. Tal como a comida”.

Aliás, um dos projectos que mais entusiasma o grupo neste momento é a “Community Kitchen”, ou cozinha comunitária, onde se investiga a gastronomia local e se promovem encontros interculturais. “Começámos por estudar o arroz. Já experimentámos receitas chinesas, mas também o arroz doce e pratos tradicionais portugueses. Já fizemos pelo menos três festas abertas à comunidade, onde cada pessoa traz um prato caseiro. É uma forma de partilhar e conhecer”.

Uma vila em transformação

Uma das coisas que mais a surpreendeu em Maiorca foi a vitalidade crescente da vila: “Quando cá vim pela primeira vez, em 2020 ou 2021, parecia quase desabitada. Mas em poucos anos vi a vila ganhar vida. Algo aconteceu, e é um bom sinal”.

Também observa que o conceito de “local” está a mudar: “Nem todos os que vivem aqui são naturais da região. Alguns vivem cá há 20 anos, outros apenas vêm duas vezes por ano. Mas para mim, todos fazem parte. Eu própria não me considero local, nem da China, nem de Berlim. Somos pessoas em movimento. Chamamos a este processo ‘relocalização’. Estamos a reconstruir o sentido de comunidade num mundo em constante mobilidade. Não somos refugiados, mas estamos à procura de um lar”.

Uma nova identidade para Maiorca

“Maiorca já não é apenas uma vila tradicional. É uma vila onde a realidade actual se reflecte: parte turismo, parte migração, parte arte e tentativa de recomeço. A beleza está nas coisas simples. A vizinha que caminha pelos campos e sente o amor que vem das árvores é tão artista como qualquer outro. E isso também é Maiorca”.

A artista termina com um sorriso: “No início, organizávamos eventos e ninguém vinha. Agora, começamos a sentir que algo está a germinar. O presidente da Junta tem apoiado muito. Sem ele, não teríamos autorização para pintar murais ou promover actividades. É graças a esse apoio que conseguimos reunir pessoas, misturar realidades, criar um novo sentido de comunidade”.

Em Maiorca, está a acontecer algo único: um projecto discreto, mas profundamente transformador, que mostra como a arte, a escuta activa e a vontade de recomeçar podem dar nova vida a uma vila. E a quem nela encontra, finalmente, um lar.

Joana Alvim