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Projecto valoriza o jacinto-de-água na bacia do Mondego

24 de Dezembro 2023 Jornal Campeão: Projecto valoriza o jacinto-de-água na bacia do Mondego

Chama-se ‘Biocomp 3.0’ e tem como objectivo transformar em fertilizantes o jacinto-de-água, cuja proliferação afecta actualmente a Bacia do Mondego. O projecto, que teve início a 1 de Abril deste ano e termina a 30 de Setembro de 2025, é liderado pelo Instituto Politécnico de Bragança e conta com 12 entidades públicas e privadas.

Grosso modo, a ideia passa por promover a compostagem da matéria orgânica retirada dos cursos de água adjacentes ao canal principal do rio Mondego (vários dos quais, como o chamado “leito abandonado” em Montemor-o-Velho ou o rio Foja, na Figueira da Foz), que estão cobertos em parte da sua extensão com aquela espécie invasora.

Ao “Campeão”, Manuel Ângelo Rodrigues, do Instituto Politécnico de Bragança (IPB), um dos parceiros principais na área do conhecimento científico, começa por explicar que a remoção do jacinto-de-água dos cursos de água “não é da responsabilidade” do projecto ‘Biocomp 3.0’ e que as acções do mesmo “visam encontrar um destino para as enormes quantidades de biomassa retiradas dos cursos de água” pelas entidades municipais e outras com autoridade para a intervenção nas massas de água (Protecção Civil e Bombeiros que executam a remoção da invasora sob coordenação da CIM da Região de Coimbra).

Como é sabido, as condições edafo-climáticas nacionais são pouco favoráveis à manutenção de elevado teor em matéria orgânica do solo, o que reduz a funcionalidade e resiliência deste recurso de produção agrícola, florestal ou suporte de ecossistemas. O projecto tem o compromisso de realizar a compostagem do jacinto-de-água em mistura com diversos outros materiais orgânicos disponíveis em abundância na região (resíduos da actividade agropecuária, agroindustrial e florestal) a uma escala industrial, com vista a preparar compostos orgânicos agrícolas de elevado valor fertilizante para os solos e a preços competitivos no mercado nacional”, explica o responsável do IPB.

Recorde-se que o jacinto-de-água está entre as 100 piores espécies exóticas invasoras a nível mundial. Na União Europeia encontra-se no grupo das 41 espécies exóticas invasoras preocupantes. A nível nacional, explica o IPB, está interdita a detenção, cultivo, criação, comércio, introdução na natureza e o repovoamento com os seus espécimes/propágulos viáveis. Os prejuízos que provoca nos cursos de água são elevadíssimos, uma vez que invadem integralmente as massas de água. Para além dos danos provocados nas estruturas hidroagrícolas e impedimentos ao uso da água nas actividades produtivas e recreativas, a sua presença impede a entrada de luz e a decomposição dos grandes volumes de biomassa na água consome o oxigénio, tornando o curso de água inabitável para muitos organismos vivos.

O IPB refere ainda que a falta de oxigénio também advém do elevado desenvolvimento e recobrimento das linhas de água com jacinto, que impede a passagem da luz solar. “Remover o jacinto-de-água acarreta custos financeiros enormes às entidades municipais. Entidades municipais e outras, nomeadamente as que têm responsabilidades ao nível da gestão das linhas de água (valas de rega e de drenagem) nos perímetros de rega públicos. Entre essas entidades estão as associações de regantes e de beneficiários dos empreendimentos hidroagrícolas. Além destes prejuízos, a remoção do jacinto-de-água acarreta enormes custos financeiros às entidades locais”, sustenta Manuel Ângelo Rodrigues.

Economia circular na Agricultura

Como decorre o processo da transformação em fertilizantes do jacinto-de-água, e de que forma é possível chegar à tão desejada economia circular na Agricultura? À pergunta, Manuel Ângelo Rodrigues responde: “a biomassa de jacinto-de-água é compostada em misturas compatíveis com os materiais orgânicos disponíveis em abundância na região e previamente avaliados na sua composição química para que as misturas permitam um processo de compostagem adequado e a obtenção de compostos orgânicos de elevado valor agrícola”.

E contribui para a economia circular na Agricultura “porque ao transformar subprodutos agrícolas, agroindustriais e florestais em matéria fertilizante estaremos a devolver ao solo muitos dos nutrientes que lhe foram retirados. Ao juntar a biomassa do jacinto-de-água estaremos também a adicionar muitos dos nutrientes excedentes da Agricultura, que vão para as águas drenadas dos campos agrícolas e que são concentrados nos tecidos desta espécie invasora”.

Neste caso particular, “é biomassa produzida em grande quantidade e actualmente sem destino apropriado que estará a ser transformada num importante recurso para a recuperação da fertilidade dos solos pela reincorporação dos nutrientes extraídos, respeitando plenamente os princípios da economia circular”, acrescenta o docente.

As acções deste projecto estão centradas no âmbito da acção da CIM da Região de Coimbra, que tem a responsabilidade de controle da invasão de jacinto-de-água nos concelhos com maior infestação do jacinto-de-água: Montemor-o-Velho, Cantanhede e Figueira da Foz.

Contudo, os resultados obtidos serão extensíveis a todas as regiões em que o jacinto-de-água é um problema, bem como os benefícios que os compostos orgânicos poderão proporcionar no aumento da fertilidade dos solos nacionais que sustentam a produção de alimentos nos mais diversos sistemas agrícolas.

Manuel Ângelo Rodrigues explica que o processo de compostagem será realizado pela empresa Leal & Soares, S.A. (SIRO), que detém uma vasta experiência na produção de substratos e compostos orgânicos a partir da compostagem de resíduos florestais. A empresa é especializada em compostagem de matérias orgânicas em larga escala há mais que duas décadas, transformando-as em produtos de qualidade certificada.

As propostas para que a legislação actual, relativa à colocação no mercado de novas matérias fertilizantes, passe a contemplar a produção e comercialização seguras de compostos orgânicos a partir de uma invasora aquática, será da responsabilidade da Colina Generosa. Esta empresa trabalhará em articulação com a Escola Superior Agrária do IPC no que diz respeito aos parâmetros de qualidade e eficácia agronómica que devem ser assegurados pelo composto, bem como no que diz respeito à adequação da legislação para garantir o uso seguro desta invasora e exclusivamente da biomassa que é retirada nas operações de controle de infestação, harmonizando a legislação que regula o controle desta invasora com a legislação de comercialização de novas matérias fertilizantes.

Valorizar o recurso

Como mais-valias deste projecto, salienta o IPB, está a valorização de um recurso que “pode ser usado pelos agricultores para benefício do estado de fertilidade dos solos nacionais e da produção agrícola, permitindo restituir muito do investimento feito no controle desta invasora”.

Contribui para a recuperação da qualidade e biodiversidade dos cursos de água, reduzindo ou evitando situações acidentais em que o jacinto depositado nas margens dos rios acaba por voltar à água contaminando-a, seja acidentalmente ou no decurso de leitos de cheia. Há a necessidade urgente de encontrar um destino apropriado para estas massas vegetais, incorporando-lhe valor numa lógica de economia circular dos resíduos agropecuários, agroindustriais e florestais”, adianta o professor do IPB.

OBJECTIVOS DO PROJECTO

Avaliar e monitorizar a dinâmica temporal e espacial do jacinto-de-água nos ecossistemas aquáticos. Será criado um plugin com recurso a imagens aéreas e ferramentas SIG para apoio à monitorização e tomada de decisão no processo de controlo e erradicação do jacinto-de-água;

Estudo e caracterização de subprodutos de actividades agrícolas, urbanas, agroindustriais e florestais com potencial para valorização conjunta com o resíduo de jacinto-de-água;

Envolver os actores locais chave, técnicos municipais e ICNF, com responsabilidade na gestão e controlo do jacinto-de-água, e dos agricultores, potenciando a adoção das soluções testadas;

Produzir em ambiente industrial compostos orgânicos à base de resíduo de jacinto-de-água e subprodutos regionais;

Criar um sistema de rastreabilidade do produto utilizando a tecnologia Blockchain, o que garante a monitorização de todo o processo, fornecendo ao cliente informações completas e detalhadas sobre a origem e qualidade dos compostos agrícolas produzidos;

Avaliar o valor agronómico dos compostos orgânicos quando aplicados em culturas hortícolas e em espécies perenes cultivadas em solos de baixa fertilidade e baixo teor em matéria orgânica, bem como avaliar o contributo dos compostos no aumento do sequestro de carbono em solos com pastagens sob condições edafo-climáticas diversas (a Norte e Sul de Portugal);

Avaliar o nível de sustentabilidade ambiental e económica do método de produção através da avaliação do ciclo de vida (ACV) e da avaliação dos custos de ciclo de vida (ACCV) dos compostos orgânicos produzidos no contexto do projecto;

Avaliar tecnicamente as condicionantes legislativas que possam existir para se proceder à certificação e colocação dos compostos orgânicos à base de resíduo de jacinto-de-água no mercado de fertilizantes;

Divulgação do projecto e disseminação dos resultados.

Ana Clara, jornalista do “Campeão” em Lisboa

Texto publicado na edição em papel do “Campeão” de 21 de Dezembro de 2023