Vítor Rodrigues é o presidente do Núcleo Regional do Centro da Liga Portuguesa Contra o Cancro (NRC.LPCC), num mandato iniciado este ano e que termina em 2024. Entre 2018 e 2021 assumiu a Direcção Nacional, tendo exercido desde 1975 vários cargos na LPCC. É ainda director do Instituto de Higiene e Medicina Social da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, onde também é professor. A prevenção é a grande luta que trava com a sociedade civil, mas sobretudo com os órgãos governativos.
Campeão das Províncias [CP]: Como está a situação da saúde oncológica em Portugal?
Vítor Rodrigues [VR]: Não está fácil. A pandemia foi extremamente dolorosa, veio evidenciar alguma falta de planeamento e de organização, já visível antes da pandemia, apesar de a oncologia não ter sido a área da saúde mais afectada. Na verdade, a resposta à situação por parte da DGS, logo em Abril de 2020 (Norma 9/2020), permitiu que os serviços e hospitais oncológicos conseguissem, até bastante melhor do que em outras situações de doença, responder (diagnóstico e tratamento) aos doentes que a eles recorreram (o problema foi a referenciação). Esta é o tipo de resposta que, para mim, é mais importante: objectivos estratégicos, planeamento, organização, a operacionalização e também a sustentabilidade, que são sempre questões fundamentais. Mas temos outro problema, sobretudo num futuro próximo, o aumento da incidência – número de casos – que continuarão a aumentar, quanto mais não seja pelo envelhecimento, e continuamos a não observar a preparação para esse facto. É isso que acontece no nosso país, a recuperação do passado e a preparação para o futuro a curto e médio prazo.
[CP]: A doença oncológica continua a ser uma doença muito grave?
[VR]: Quando se fala em doença oncológica falamos de uma maneira muito generalista porque há várias localizações tumorais e dentro de cada localização a situação é diferente porque cada um tem as suas características – um cancro do pulmão não tem as características de um cancro da mama, uma leucemia, que há 20 anos era sinónimo de morte, hoje em dia tem uma taxa de sobrevivência enorme. No cancro da mama evoluímos muito por causa dos rastreios, aliás todos os ensinamentos que tivemos com estes rastreios estão a ser transportados para outro tipo de patologias. Este tipo de cancro teve uma coisa em seu benefício que foi o facto de algumas figuras públicas falarem sobre o assunto, o que veio ajudar a diminuir o estigma da doença. O mesmo, infelizmente, ainda não aconteceu com outros, por exemplo o do pulmão, próstata, pâncreas, ovário, muito por causa da agressividade destas patologias. O da próstata também não se fala por questões sociais, tem o estigma das incontinências e das impotências. Mas estamos a imitar, mais ou menos lentamente, o exemplo do cancro da mama feminina.
[CP]: Porque é que ainda não se fazem rastreios ao cancro como se faz ao cancro da mama?
[VR]: Primeiro porque ainda não há capacidade tecnológica para fazer um diagnóstico precoce para todas as localizações (actualmente apenas mama feminina, colo do útero e colorretal), e naquelas que já começa a ser tecnicamente possível, não é exequível fazê-lo de uma maneira universal de forma imediata; mas também porque um rastreio não tem só benefícios tem também riscos, e eles devem ser sempre balanceados. Por exemplo, grandes taxas de falsos negativos e de falsos positivos, ou necessidade de procedimentos muito invasivos em pessoas que, provavelmente, não têm a doença. Mas, gradualmente, temos esperança que vai continuar a evolução tecnológica que nos permitirá, a prazo e gradualmente, estender os rastreios para outras localizações tumorais, e o nosso objectivo é alcançar com estes o mesmo sucesso que tivemos com o rastreio do cancro da mama. Temos de ter em conta que não foi há muito tempo que se falou, pela primeira vez, do diagnóstico precoce do cancro da mama, foi na década de 80. Ainda assim, caminhamos na direcção do alargamento de rastreios a outras patologias, temos é de ter capacidade de planeamento e disponibilidade de recursos tecnológicos e humanos. Por exemplo, a Comissão Europeia vai recomendar o exame do PSA (Antígeno prostático específico) e uma ressonância magnética subsequente, para um teste positivo, para o diagnóstico precoce do cancro da próstata, mas se nós não temos, neste momento, ressonâncias magnéticas em nenhum país da Europa suficientes para fazer um diagnóstico clínico, é o mesmo que ter uma auto-estrada com seis faixas, mas apenas duas cabines de portagem (e as pessoas têm que esperar sem resposta clínica… não é ético nem eficiente). E também o futuro rastreio de cancro do pulmão vai exigir investimentos avultados em TAC’s de baixa dose. O ponto fundamental é o planeamento, a organização e a adequação à realidade e aos sistemas de saúde, entre outras características, obviamente.
[CP]: A idade para o rastreio do cancro da mama não é demasiado alta?
[VR]: Na maior parte dos países é feito aos 45 (tal como em Portugal desde 1990), nós fazemos a partir dos 50 por ordem da DGS de 2016. Abaixo dos 45 a mamografia (isolada) é normalmente insuficiente ou ineficaz, temos que a associar à ecografia e não é fácil ter ambos ao mesmo tempo e mesmo sob o ponto de vista científico o custo/beneficio não é favorável A resposta para as idades mais baixas tem de ser outra, tem que ser uma resposta individualizada e articulada com o médico assistente. Temos evidências de que antes dos 45 anos a procura individualizada é eficaz na diminuição da mortalidade, ou seja, o caminho da prevenção é realizar o rastreio a partir dos 45 anos, mas a referenciação, quando há sinais e sintomas, antes dos 45 deve ser feita no centro de saúde, para então depois entrar nos cuidados de saúde hospitalares. Têm sido dados passos que permitem diminuir a mortalidade, apesar de existir maior número de casos da doença. E é também adequado aumentar a idade-alvo até aos 74 anos, as vantagens estão provadas.
[CP]: Como é que a Liga sobrevive?
[VR]: O dinheiro é, e vem, da população. Na realidade o dinheiro entregue à Liga é de todos e, portanto, a nossa função é voltar a entregá-lo à sociedade, sob a forma de programas estruturados e, sempre, dar contas. Curiosamente muitas pessoas já acreditam tanto no trabalho da instituição que já não querem saber de contas. A Liga Portuguesa Contra o Cancro é das instituições mais respeitadas e temos tido sempre um conjunto de pessoas que fizeram, fazem e farão um trabalho espectacular, que deram, dão e darão tudo de si e por isso a LPCC tem da parte da população a confiança para fornecer os meios, mas isso faz-nos ter ainda maior responsabilidade. Do Estado não recebemos fundos (excepto do trabalho do rastreio, através do qual recebemos cerca de 20 euros por mamografia – valor do sistema convencionado, que aliás não é revisto há mais do que uma década e do qual temos de pagar tudo o que gastamos com o programa). O nosso financiamento vem, principalmente, de duas fontes: do Peditório Anual e da consignação do IRS que, entretanto, ultrapassou o valor do Peditório.
Apesar de tudo, e apesar de todas as dificuldades que vivenciamos, continua a haver uma enorme disponibilidade por parte da população para contribuir e é curioso que, muitas vezes, aqueles que parecem ter menos capacidade económica são os que mais contribuem. Este dinheiro é fundamental, temos conseguido fazer muita coisa, o Estado não consegue responder a 100% a todas as necessidades da sociedade. Temos de ser nós (sociedade), a contribuir, a ajudar porque se não o fizermos agravamos a situação. Temos de mudar a nossa forma de pensar, votamos em quem nos diz que vai só construir hospitais e não em quem quer apostar na prevenção e a verdade é que cada euro gasto na prevenção vai permitir uma “poupança”, a prazo, enorme, mas cujos resultados demoram a aparecer. Esta é uma doença demasiado cara e pesada, e muita podia ser evitada, temos de estar despertos para este problema. Exijam (e pratiquem) prevenção para não estarem doentes, é isso que tem de ser dito às pessoas. Gostava de referir que o Peditório a nível nacional rendeu cerca de um milhão e seiscentos mil euros e posso dizer-lhe que, per capita, a região onde as pessoas dão mais é na Região Centro (cerca de seiscentos mil euros). Sou voluntário da Liga desde 1975, aliás ainda não tinha entrado, como aluno, na Faculdade de Medicina, e é com muito orgulho que vejo, desde que me lembro, este reconhecimento por parte de todos a esta instituição. Orgulhamo-nos de ter conseguido aumentar a visibilidade ao que é feito com o dinheiro doado, as pessoas conseguem, cada vez mais, “ver” o retorno às pessoas e às instituições de saúde. Temos feito um esforço para fornecer melhores condições e melhor qualidade de vida a quem está doente e aos seus familiares e a quem trata clinicamente deles. Mas temos de continuar a perguntar às pessoas sobre o que precisam, no dia-a-dia, é essa também a nossa função.
[CP]: Para além do Peditório e da consignação do IRS como é que as pessoas podem ajudar?
[VR]: Podem fazer doações a qualquer altura. Quem quiser colaborar pode colaborar, não apenas monetariamente. Toda a ajuda, toda a participação é bem-vinda. Pode doar a projectos específicos, pode conhecer os nossos projectos e humanizá-los, e participar financeiramente em projectos e programas que a todo o momento vamos tendo, seja na comunidade, seja nos centros de saúde, seja nos hospitais. E também como voluntários, a alma da nossa Liga Portuguesa contra o Cancro.