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ENTREVISTA: Carlos Robalo Cordeiro defende que não há falta de médicos no país

8 de Outubro 2022 Jornal Campeão: ENTREVISTA: Carlos Robalo Cordeiro defende que não há falta de médicos no país

É um dos mais reconhecidos pneumologistas no país e além-fronteiras. Prova disso mesmo é, por exemplo, o facto de ter sido recentemente eleito para presidir à European Respiratory Society [Sociedade Europeia de Pneumologia], assumindo-se como o primeiro português neste cargo. Carlos Robalo Cordeiro, professor catedrático, é director da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra (FMUC) para o biénio 2021-2023 e do Serviço de Pneumologia dos Hospitais da Universidade de Coimbra. O especialista fala do ensino médico e da medicina em Coimbra e no país e volta a frisar a posição que já anteriormente havia manifestado em Entrevista ao “Campeão”: não são precisos mais cursos de Medicina (nem médicos) no país.

Campeão das Províncias [CP]: Coimbra sempre foi um centro médico de excelência?
Carlos Robalo Cordeiro [CRC]: A saúde é uma das principais bandeiras de Coimbra. A cidade também sabe criar condições favoráveis para uma saúde de elevada qualidade, a área da assistência, do ensino e da investigação nomeadamente, com muita proximidade geográfica. A iniciativa de deslocar a saúde no ensino para perto do pólo hospitalar fez todo o sentido. Temos ainda algumas das nossas unidades de ensino e investigação no pólo I mas estão a ser criadas condições para acolher as seis unidades que ainda falta acolher.

[CP]: A FMUC vai continuar a ter o nível pelo qual é (re)conhecida?
[CRC]: Sim, todos estamos a trabalhar nesse sentido. O nosso ensino médico é bom e tenta-se transmitir a estas gerações uma cultura de orgulho e responsabilidade para que todo o conhecimento adquirido seja colocado ao serviço do doente. O conhecimento e o saber adquirido são readaptados permanentemente. A cerimónia da Bata Branca, por exemplo, que decorreu no domingo (2), é um compromisso que se passa a ter com os doentes e suas famílias. Vestir a bata branca é um compromisso ético, comportamental, de responsabilidade, para que, com todo o conhecimento adquirido, o doente seja tratado com humanidade. Queremos formar boas pessoas para serem bons médicos. Sob o ponto de vista do programa Erasmus somos a Universidade com mais liderança nessa matéria, na UC quase 20% dos alunos são estrangeiros, e temos uma população estudantil que vai muito além do distrito de Coimbra. No ano passado tínhamos ultrapassado os 50% de alunos a escolher a FMUC como primeira opção, este ano a própria UC ultrapassou os 50% pela primeira vez e a FMUC cresceu mais 10%.

[CP]: O investimento na área médica em Coimbra não tem sido tão pouco quanto isso, não é?
[CRC]: Sim, porque também há resultados. Nós agora estamos num processo muito importante que é o de consolidação e avaliação por um painel internacional do centro académico e clínico, um consórcio entre a UC e o CHUC. A 25 de Outubro teremos a visita desse painel para podermos consolidar esta estrutura como o suporte na assistência, ensino, formação e investigação na saúde em Coimbra. Esta é a base que não tem sido muito acarinhada sob ponto de vista financeiro, porque criaram-se estes centros académicos no país mas sem um pacote financeiro capaz e que lhes dê autonomia.

[CP]: É prestigiante, para si e para Coimbra, ter sido eleito presidente da Sociedade Europeia de Pneumologia?
[CRC]: Sim, claro. É a sociedade mundial com maior dimensão: tem 32 mil sócios de 159 países no mundo. Além de que é a primeira vez que um português assume esta posição e isso enche-me de orgulho, mas também de responsabilidade, dado o impacto global das iniciativas da Sociedade. Ainda na passada semana estive em Bruxelas, onde temos uma sede política, para promover um maior conhecimento da saúde respiratória, numa altura em que aconteceu a entrada do cancro do pulmão para as recomendações da União Europeia nos rastreios de patologia oncológica, o que é um avanço grande para as populações de alto risco.

[CP]: Estamos livres da Covid?
[CRC]: Sim, maioritariamente. O perfil da pandemia mudou radicalmente com a vacinação. Temos a vacina da nova geração que está adaptada à nova variante (Omicron) e esta é a evolução natural da pandemia: os vírus têm de viver dentro de nós e deixam de ter uma agressividade tão grande. Portanto, o final do estado de alerta não me parece ter sido precipitação. Há cerca de três semanas o director-geral da OMS fez uma declaração pré-final de pandemia e é uma organização tão segura que essas declarações não teriam sido feitas se não significasse mesmo a fase pré-final da pandemia.

[CP]: Estamos a recuperar patologias que ficaram para trás com a pandemia?
[CRC]: Estamos a recuperar as patologias que ficaram para trás, mas com danos. Com vidas sacrificadas, doentes que chegaram já em estado avançado da doença. Mas é preciso realçar algo que não foi tão falado quanto devia: o CHUC foi o maior dispositivo covid do país. Chegou a ter mais de 500 doentes covid internados no total dos seus pólos, chegou a ter em cada duas camas uma ocupada por um doente covid. Foi, portanto, uma actuação que cumpriu o compromisso que hoje nos permite estar a viver uma fase diferente. Principalmente três especialidades sofreram com a pandemia: a pneumologia, a infecciologia e a medicina interna, para além dos cuidados intensivos. E com danos também para os profissionais de saúde, não só para os doentes. Muitos abandonaram o serviço público, sobretudo com muito sacrifício que significou um desgaste que ainda se nota.

[CP]: Temos agora um SNS mais fragilizado?
[CRC]: É um problema multifactorial. Precisa de um esforço de grande empenhamento e temos esperança que este novo modelo de gestão possa significar uma mudança. A classe médica não foi bem tratada, as pessoas ultrapassaram os seus limites, sofreu-se muito e até na formação médica ficaram sequelas porque, durante a pandemia, o contacto com os doentes – que é tão importante – foi muito limitado. Os problemas que hoje existem são muitos e também têm a ver com dificuldades na formação, porque temos muitos dos seniores fora do SNS, falta mão-de-obra qualificada para formação dos mais novos. Falta promover o apoio a nível das carreiras médicas, a revisão dos salários e a melhoria das condições de trabalho. O caso das urgências é um problema que tem de ser resolvido a montante. Devia existir uma capacitação pré-urgência hospitalar que prestasse a devida assistência e evitasse que as pessoas lá fossem por tudo e por nada. Tão importante, ou mais, que o financiamento (ou falta dele) no SNS é o planeamento e organização. Este novo modelo é uma oportunidade, há uma certa esperança de uma gestão política e operacional e é importante que os problemas do sistema nacional da saúde sejam encarados sem reservas político-ideológicas. É preciso um trabalho conjunto – entre o privado, público, social, misericórdias – e têm de ser ultrapassados os complexos. Mesmo na pandemia podia ter-se feito mais a esse nível, podia ter-se castigado menos o SNS e feito uma melhor articulação.

[CP]: Qual a sua posição face às declarações do primeiro-ministro sobre a necessidade de mais cursos de medicina no país?
[CRC]: Há aqui um contínuo na formação pré (nas faculdades de medicina) e pós-graduada (nas especialidades). Somos o terceiro país da OCDE com maior número de médicos por habitante. Somos o oitavo país com o maior número de alunos de medicina por habitante. Portanto, não entendo a criação de mais cursos de Medicina sem que sejam melhoradas as condições daqueles que já existem. Na FMUC, por exemplo, entramos nos anos clínicos com mais de 300 alunos por ano. Evidentemente que isto é um esforço muito grande para uma escola que tem os recursos e condições que tem. Pensar em melhorar as escolas nessa pespectiva, em dar mais condições, em permitir, por exemplo, a entrada de estudantes internacionais que nunca se permitiu – medicina é a única licenciatura ou mestrado integrado que não tem autorização para acolher estudantes internacionais. Há mais que fazer que pulverizar faculdades de medicina pelo país. Tem de haver uma discussão séria dos números e é preciso perceber o que está mal nas escolas. A criação de escolas médicas não deveria ser viabilizada sem um estudo prévio e transparente. Até pode ser que se chegue a essa conclusão, mas aquilo que reconheço, para já, são os números que acabei de dizer.

Lino Vinhal / Nádia Moura

»» [Entrevista da edição impressa do “Campeão” de 05/10/2022]