A solidariedade pode expressar-se através da mobilização em torno dos direitos humanos, reconhecendo que a sociedade civil e cada um de nós pode dar o seu contributo, ou em função do sentimento benemérito e de caridade, que pessoas de bem com ou sem ligações religiosas perfilham.
Ambas as formas podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas mais fragilizadas economicamente ou, mais importante ainda, para a dignidade da pessoa humana e condições de vida, criando ainda um vínculo entre a responsabilidade social institucional e o exercício da cidadania em prol dos outros, e assim fortalecendo os objectivos solidários.
Tal não se pode confundir, nem com o mercantilismo e oportunismo de sectores da sociedade que procuram estatuto que possa originar outros benefícios pessoais, nomeadamente políticos ou de criação de lobbys, nem com o folclore e aproveitamento de sectores do Estado para construção da sua imagem e ganho secundário eleitoral.
Além disso, a solidariedade caritativa não deve dar origem à exploração das emoções e sentimentos religiosos que caraterizam pessoas de boa fé ou que procuram remissão dos seus “pecados”, através da prestação de acções piedosas, nem à manipulação dos crentes, de forma a desvalorizar os direitos humanos e a recriar a concepção paternalista de perdão, associado a que tudo tem um preço tipo côngrua como dever moral e religioso do crente contribuir financeiramente.
Isabel Jonet, presidente veterana do Banco Alimentar Contra a Fome, em 08.11.12, disse que “os portugueses não podem comer bifes todos os dias; ou vamos a um concerto de rock ou podemos ir tirar uma radiografia quando caímos numa aula de ginástica”, ignorando o direito à saúde, à alimentação e ao lazer.
Ora, com este discurso elitista, pedante, ofensivo e xenófobo, a dita senhora, faz lembrar o Movimento Nacional Feminino do regime da ditadura, que fazia caridade ao mesmo tempo que protegia a guerra colonial que matou 10.000 portugueses e um número indeterminado de africanos, que estropiou dezenas de milhares de militares, que violentou 500.000 famílias portuguesas e destruiu número indeterminado de famílias dos países colonizados, que provocou distúrbio pós-traumático do stress a 140.000 militares portugueses. Tudo, a bem da Nação, dizia o regime.
Quase 10 anos depois (06.09.22), após muitas outras afirmações desbragadas produzidas para manter o status, a referida senhora volta à carga, dizendo que “os pobres têm uma certa tendência natural para gastar o dinheiro malgasto”, mostrando preconceito, castigando a pobreza, ignorando o direito de igualdade de oportunidades.
Com esta filosofia de vida, só mesmo o bom povo português sustentaria tais métodos de “solidariedade”, ditames e pensamento retrógrado pior do que conservador, perdendo credibilidade a organização que a suporta (e como suporta?), da qual se serve promovendo-se e cujos méritos não deveriam ser delapidados por tal personagem ancestral, do tempo que volta para trás.
José Barata Moura, ilustre professor e cantautor, encantava-nos com a sátira “Vamos brincar à caridadezinha, festa, canasta e boa comidinha”, criticando “queremos ser irmãos, mas nunca sujamos as mãos”, e concluindo que “não vamos brincar à caridadezinha; festa, canasta é falsa intençãozinha”.
Que forma brilhante de louvar a justiça social e promover os direitos humanos. Subscrevemos José Barata Moura e a solidariedade como expressão de direitos humanos, e rejeitamos a caridadezinha que inferioriza os cidadãos.
(*) Médico