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Reportagem: Loucomotiva apresenta uma nova forma de fazer teatro em Coimbra

19 de Março 2022 Jornal Campeão: Reportagem: Loucomotiva apresenta uma nova forma de fazer teatro em Coimbra

Fundado em 1969 por um grupo de jovens residentes em Taveiro, começou por ter a designação de Grupo Teatro Amador de Taveiro. Sem casa própria, o grupo, criado por um jovem amante de teatro que, à época, integrava o Grupo de Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, promovia sessões de representação e foi numa delas que exibiu a sua primeira peça. O Loucomotiva procura apostar numa nova forma de ver o teatro, com uma abordagem inovadora e de constante descoberta.

Nascido há 53 anos, o Loucomotiva – Grupo de Teatro de Taveiro completa, em 2022, o seu 11.º ano nas actuais instalações. Este é um espaço construído de raíz, que demorou uma década a erguer-se. Luís Serrano, presidente da Direcção, recorda o esforço que foi colocado no projecto. “Tivemos apoios, mas não foram, obviamente, na totalidade e muito do dinheiro que foi investido aqui foi conseguido por nós”. O grupo candidatou-se, na altura, a um programa no âmbito do Ministério do Ambiente, através da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC), do qual obtiveram uma comparticipação “razoável” para a construção do teatro. Apesar destes apoios, que também vieram por parte da Câmara Municipal de Coimbra (CMC), o presidente refere que “passaram as passas do Algarve”, acrescentando que conseguiram “obter o valor, que na altura em imprescindível para se acabar a obra por, à época, estar a decorrer o período eleitoral”.

Todos os anos o Loucomotiva se candidata aos apoios do Município de Coimbra sem os quais “não conseguiriam sobreviver”, afirma Luís Serrano. A manutenção das instalações é uma das maiores despesa, tendo o grupo já pedido à CMC que esta vertente também fosse considerada nos apoios. “Precisávamos de ter aqui gente a tempo inteiro e não temos, porque não há dinheiro”, expõe.

A “casa” para muitos jovens

Desde a criação da sua “casa” que existem também as oficinas de teatro. Actualmente, existem cinco turmas a funcionar – duas de dança e três de teatro, sendo uma das de teatro exclusiva para adultos – com um total de 110 formandos. Esta é, segundo o presidente, a “grande mola de sobrevivência deste espaço”. A adesão a estas oficinas tem vindo sempre a aumentar. No ano passado foi suspendida uma turma de dança, devido à necessidade de dividir as turmas por turnos. “A adesão tem sido muito grande, em algumas turmas chegámos a ter constrangimentos devido ao elevado número de alunos e chegou ao ponto de termos de começar a dizer não”.

O número de actores do grupo varia consoante a produção que está em cena. “Servimo-nos muito dos nossos formandos e agora, com a questão da pandemia não queremos, nem podemos, ter muita gente em palco. Para as nossas produções temo-nos socorrido das pessoas mais experientes e com mais formação”. Apesar de não ser uma Companhia de teatro profissional apresenta, salvo grandes excepções, produções originais, tendo um dramaturgo residente que escreve apenas para eles, o Jorge Geraldo.

Em tempos, este era um grupo itinerante, mas agora só apresenta as suas peças noutros pontos do país, caso as condições sejam vantajosas. “É algo que está sempre presente nos nossos relatórios de actividades. Damos prioridade à residência e não à itinerância”, sublinha o responsável.

Luís Serrano não se queixa da falta de espectáculos, há sempre alguém a pisar o palco e gente que quer assistir. Na primeira peça que o grupo realizou após o surgimento da pandemia de covid-19, a adesão foi em massa, esgotando o espectáculo no espaço de uma semana. Muitas das reservas foram feitas através do site oficial da Companhia, muitas por pessoas que não conheciam o espaço e nunca tinham visto nenhuma actuação do grupo. A peça em questão, «O fim dos dias intermináveis», aborda o tema da pandemia. “O nosso registo não é de «faca e alguidar», mas sim mais cómico. É possível que nos critiquem por essa razão, mas é o nosso registo e temo-nos dado muito bem com isso”.

Mudou completamente a minha vida”

É durante os seus espectáculos que o grupo faz a divulgação das oficinas, entregando fichas de pré-inscrição ao público. Em finais de Agosto começam a contactar todos os que terminaram o ano lectivo, no sentido de apurarem se estão ainda interessados. Por volta de Setembro ou Outubro começam as aulas. Foi assim que conseguiram atrair a atenção de Luís Rafael. O jovem começou a frequentar as oficinas com 14/15 anos, actualmente é licenciado pela Escola Superior de Educação de Coimbra e está a realizar um estágio profissional no Loucomotiva.

“Eu era uma pessoa muito fechada e sedentária e, na altura, o meu pai ouviu rumores de que esta casa existia e propôs-me experimentar. Mudou completamente a minha vida, tanto social – visto que melhorei a maneira de me expressar e de falar com os outros -, como profissional, porque me ajudou a descobrir aquilo que queria fazer para o resto da vida”, realça Luís Rafael.

O jovem começou assim a conhecer e a aproximar-se do grupo que, segundo ele, fez tudo o que podia e esteve sempre disposto a ajudar. “Convidaram-me para fazer parte de uma produção, integrando o elenco principal. A partir daí começei a subir na companhia e a fazer parte dos órgãos sociais. Acabei a licenciatura há relativamente pouco tempo, enquanto estive a estudar parei de frequentar as oficinas, porque não conseguia conciliar as duas coisas”. O actor sempre teve a intenção de realizar o estágio profissional neste Grupo de Teatro e tudo fez para que isso se proporcionasse. “Devo muito a esta casa e foi por essa razão que aqui quis fazer o estágio, embora agora esteja a trabalhar mais na parte financeira”, explica. De momento, Luís Rafael é co-protagonista na peça «O fim dos dias intermináveis».

Ana Luísa Pereira

»» [Reportagem da edição impressa do “Campeão” de 17/03/2022]