Coimbra  28 de Janeiro de 2023 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Urgências!

20 de Janeiro 2023

Em Coimbra, um doente, a conselho telefónico do seu médico, contactou o 112, após ter tido uma síncope (perda temporária de consciência) no seu domicílio. Foi encaminhado para a linha SNS24, que o aconselhou a dirigir-se “pelos seus próprios meios” à urgência hospitalar. Aqui chegado, além dos doentes em observação, tinha uma lista de espera de 100 (cem) doentes para inscrição. Em diálogo informal com outra doente já inscrita, informou-o que estava à espera de ser atendida há 18 horas. O doente inicial resolveu desistir e dirigiu-se para um hospital privado, a poucos metros do hospital central estatal, sendo atendido no imediato.

As urgências hospitalares são um problema em Portugal e não só, sem soluções milagrosas, o que por vezes leva a conformismo de decisores e utentes, sendo estes os lesados e, nalguns casos, sem possibilidade de reclamar por eventual desenlace fatal.

No início do SNS, cuja criação defendemos, há 44 anos, havia transportes em ambulância por corporações de bombeiros voluntários ou municipais, não havia listas de espera nas urgências hospitalares, os hospitais concelhios e os centros de saúde tinham serviço de atendimento permanente, quando havia grandes acidentes os médicos de folga deslocavam-se voluntariamente para ajudar os seus colegas já escalados, era uma honra trabalhar num grande hospital que transmitia conhecimentos e dava prestígio.

Posteriormente, foi criado o INEM, foram encerrados os serviços de atendimento permanente dos centros de saúde, os hospitais concelhios foram extintos salvando-se alguns do sector social, foi aplicada a triagem de Manchester nos hospitais e eliminada a triagem em centros de saúde, são criadas tipologias de urgência hospitalar desde básica a polivalente, os centros de saúde “evoluíram” para 3.ª geração, com Unidades de Saúde Familiar onde se faz Medicina Geral e não se faz Medicina de Família e com remunerações diferentes para a mesma categoria profissional e funções.

Nas urgências hospitalares passaram a existir três problemas (pelo menos): os picos de afluência, as falsas urgências e a redução de médicos e enfermeiros, agravado por regimes de prevenção sem presença.

Fazem-se planos de contingência para as situações de crise (os tais picos de afluência), mas não se programam serviços mínimos para todo o ano, com o número de profissionais de saúde necessários e suficientes para a prestação de serviços de qualidade.

As falsas urgências entopem os serviços, prejudicando as verdadeiras urgências, nalguns casos com desfecho a não descrever, porque há referenciação hospitalar, mas não há verdadeira articulação dos cuidados de saúde primários com os cuidados hospitalares, porque os serviços de atendimento permanente dos centros de saúde foram extintos por restrições económicas, porque os utentes desesperados não têm alternativa de atendimento, ou há pretensas soluções em que não acreditam.

A redução de médicos e enfermeiros é notória, com o abandono do SNS para os hospitais privados ou para o estrangeiro (porque será, há só um “culpado”?). Diz-se também que são formados poucos médicos nas Faculdades de Medicina, mas em 1990 eu tinha 12 alunos, em 2017 tinha 40 alunos, por turma.

…e em Coimbra

Em Coimbra, a urgência está concentrada nos HUC, ficando o Hospital dos Covões em desmantelamento com um serviço de urgência menos do que básico, sem abertura de 24 horas para acesso dos utentes e com restritas especialidades médicas de serviço.

Na área dos cuidados de saúde primários, seria útil a criação de um Serviço de Atendimento Agudo e Orientação Urgente Permanente (SAAOUP) por ACES (Agrupamento de Centros de Saúde), ficando localizado um Serviço na capital do Distrito e outro em zona inter-concelhia mais adequada.

Teria o objectivo de assegurar os cuidados de saúde em doença aguda e acidentes durante 24 horas, 7 dias por semana, e reduzir o elevado afluxo aos Serviços de Urgência Hospitalares, que acumulam falsas urgências e deterioram a qualidade da prestação de cuidados de saúde secundários e terciários, pondo em risco vidas humanas e qualidade de vida e sobrecarregando os profissionais de saúde prestadores de cuidados hospitalares.

No âmbito autárquico, em Coimbra, é essencial dar seguimento à Estratégia Municipal de Saúde e ao Plano Municipal de Saúde, após Diagnóstico de Situação, elaborados pela Universidade de Coimbra, aprovados pelo então Executivo socialista e pela Assembleia Municipal, contribuindo para a resolução do problema do atendimento urgente, eliminando a desumanidade que se verifica e a gravidade potencial dos casos clínicos.

(*) Médico