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Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Urge defender e preservar o Entrudo português

24 de Fevereiro 2017
Entrudo Jogo do Cântaro (ou da Caçoilinha). Recriação na Nazaré em 2010

Jogo do Cântaro (ou da Caçoilinha). Recriação na Nazaré em 2010

Durante séculos, o período carnavalesco português assumiu a designação de «Entrudo», que deriva do latim introitus (intróito), marcando a aproximação da quadra quaresmal.

Em Portugal, uma das primeiras referências encontra-se num documento de 1252, não relacionado com as festividades carnavalescas mas sim com o calendário religioso.

Durante a Idade Média costumava-se comemorar o período carnavalesco com uma série de brincadeiras que variavam de aldeia para aldeia. Em algumas notava-se a presença de grandes bonecos, chamados genericamente de «entrudos».

Da época de D. Sebastião existem várias referências escritas, que salientam as brincadeiras do Entrudo, entre elas a do «lançamento de farelos», que nem sempre acabavam bem.

A denominação genérica de Entrudo veio a englobar uma variedade de brincadeiras dispersas no tempo e no espaço. Estas práticas, caíram em desuso durante o séc. XX mas, graças aos esforços de grupos etnográficos e folclóricos a sua memória foi recolhida e, por vezes, recriada, de que são exemplos:

– Novos e velhos vestirem-se de «entrudo», mascarando-se e satirizando algumas personagens locais;

– Realização do «Jogo da Caçoilinha ou do Cântaro», utilizando utensílios de barro preferencialmente deteriorados, como caçoilas, cântaros, potes, panelas e tachos. Rapazes e raparigas dispunham-se numa roda, atirando pelo ar o utensílio. Aquele que não o agarrasse e deixasse partir, tinha de fugir de imediato, para não levar com os cacos que os outros lhe atiravam. O jogo terminava quando todos os utensílios tivessem sido utilizados, com os jogadores a sujarem as faces uns dos outros com as mãos enfarruscadas. Os cacos sobrantes eram atirados para dentro das casas, terraços e quintais;

– As «pulhas» ou o «azurrar» era um dos divertimentos mais ousados do período, realizado, preferencialmente, pelo cair da noite. Um reduzido grupo de homens, dirigia-se para os cabeços mais elevados nos arredores das populações. Munidos de grandes funis, denunciavam factos relacionados com a comunidade, revelando segredos e escândalos, colocando a reputação de homens e mulheres em causa.

Durante a realização das pulhas os grupos levavam um bacamarte e mandavam fogachos para intimidar potenciais perseguidores. De vez em quando gritavam: «Companheiro da esquerda! Saia fogo!». O povo ouvia através da janela a pulha e nos dias seguintes ninguém se atrevia a identificar os deitadores da pulha.

– Serrar da Velha: costume realizado à noite, por rapazes, munidos de serrote e cortiça, que se deslocavam para junto da porta das pessoas idosas para lançarem a sátira ao som de estridentes serradelas.

Os costumes alusivos às brincadeiras no período do Carnaval foram introduzidos no Brasil pelos portugueses, provavelmente no séc. XVI, também com o nome de Entrudo. Contudo, seguiram evolução diferente da portuguesa e acabaram por influenciar, negativamente, as nossas práticas.

De facto, nas últimas décadas, o Entrudo tradicional português veio a ser adulterado, designadamente, pelas paradas brasileiras carnavalescas das escolas de samba, fazendo cair em desuso as já debilitadas práticas ancestrais das nossas populações consumindo, paralelamente, importantes recursos financeiros.

(*) Historiador e investigador

 

Entrudo A exuberância do carnaval brasileiro

A exuberância do Carnaval brasileiro

 

 

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