Coimbra  29 de Maio de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Kito Pereira

Uma força que vem de dentro

19 de Maio 2023

13 de Maio – naquela mesa de confraternização e na casa de um de nós estava um reduzido grupo de homens que têm entre si uma amizade rija como o aço. Combateram em África e algumas das patentes ali representadas – de cabo a general – diluíram-se na correria dos dias. Agora, de volta de um repasto apetitoso, apenas soldados da vida. Guerreiros deste tempo conturbado semeado de dúvidas e de incertezas.

Já quando a tarde longa se derramava sobre os telhados do casario, a ordem era para desmobilizar. Uns para norte e outros para sul. Porém, a escassos quilómetros do Santuário de Fátima, algumas companheiras dos velhos soldados, fizeram menção de visitar aquele local mítico de fé em dia de grande exaltação religiosa. E assim partimos, rumo ao local de culto.

Foi fácil chegar ao Santuário. Como por magia, os cerca de duzentos mil peregrinos tinham partido e a cidade apresentava-se calma. Apenas este ou aquele forasteiro retardatário, entrava ou saía de uma qualquer loja de artigos religiosos naquele escaparate e parafernália de bens a oferecer ao visitante. Em passo lento, entrar no grande recinto. Perceber da grandiosidade daquele Lugar Sagrado. Lançar um olhar vadio referenciando este ou aquele pormenor que nos chama a atenção. E o cheiro intenso a velas queimadas que vão ardendo lentamente em braseiro, colocadas por peregrinos que de olhar vago e preces murmuradas, procuram na Bondade Divina o remédio para as suas aflições e canseiras.

Especado no meio da Praça, dou conta da limpeza do recinto, tal como já tinha observado nas ruas circundantes. Nem parecia que horas antes milhares as pessoas tinham coabitado aquela cidade. E é justo que seja referido. Como é de realçar toda a logística que permitiu o escoamento rápido dos que de novo regressaram às suas terras de origem naquele mar de gente impulsionada pela sua fé. Com o recinto quase vazio, reparo no Franciscano, homem novo, que de sandálias modestas onde habitavam uns pés grandes, atravessava a Praça com um Terço avantajado que trazia pendente à cintura a balançar ao ritmo da sua passada larga. Lá, na Capelinha das Aparições, perante um grupo de fiéis, o padre de dialeto espanhol vai compondo uma oração olhando o pequeno livro que tem entre as mãos e os óculos de lentes grossas sustentados na ponta do nariz.

A mulher africana de cabelo embranquecido, obesa, move-se de joelhos por uma fita branca de mármore que se desenha no alcatrão. Tem os olhos postos no chão e progride com dificuldade. No rosto um esgar de dor. Nos joelhos de rastos pelo chão, não traz qualquer proteção que lhe amenize o sofrimento. Fico a olhar o seu Calvário num misto de compaixão e de respeito pelo seu crer na Força Divina.

Pela autoestrada do norte ao volante do meu carro e afundado nos meus pensamentos, interrogava-me como porventura aquela mulher seria feliz. Como eu gostaria de ter assim e também uma crença avassaladora de fé que habitasse dentro mim. Uma força férrea que vem de dentro…