Coimbra  4 de Dezembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Uma esquerda sem filtro, a direita dos privilégios

5 de Novembro 2021

 

Uma esquerda sem pudor, exibicionista e narcisista, delapidou a continuidade de um património de governação solidária, reavivando fantasmas de ditadura do proletariado e de internacionalismo proletário, estimulando o ego, acreditando na pureza ideológica tipo liderança da classe operária, em nome do povo mas demarcando-se desse povo que dizem defender e do partido maioritário ab initio.

Curiosamente, desdenham de uma das prédicas marxistas, a selecção do inimigo principal, centrando no Partido Socialista o novo Diabo, e ignorando Rangel, o sucessor de Passos Coelho, o centro direita de Rio oscilante a desaguar aqui ou ali, um menino birrento do CDS que quer manter-se nos flashes da ribalta, o risco do ressurgimento da velha direita de verão quente e o perigo mal-aventurado neo-fascista.

Por muito que tentem tergiversar a sua “superioridade”, de facto, a esquerda sem filtro votou ao lado destas direitas, dando-lhes novo fôlego (quando estavam enleadas na definição de novos protagonistas e seus interesses sempre prioritários), a pretexto da transformação radical da sociedade, como se fosse para amanhã ou aí estivessem os amanhãs que cantam.

O Partido Socialista cometeu erros, decerto, tendo colaboradores e actos que não estão à altura das circunstâncias nem da sua liderança, mas consagrou uma alternativa de esquerda na governação, sob a forma de maioria de esquerda, 41 anos pós-Abril, com acção social sem austeridade nem prepotência, elogiada como modelo de estabilidade na Europa em que temos e sabemos estar.

Esta governação teve como viés a ausência de integração de membros do BE e da CDU no executivo, por razões e responsabilidade cuja imputabilidade não é pública, e que envolveria toda a esquerda solidária na política de compromisso público, lateralizando as divergências quanto à NATO e à Europa, por ser mais importante o que as unia do que as dividia, em promoção da igualdade e novos desafios climáticos, demográficos, sociais e geracionais.

O povo não compreende nem aceita a radicalização (ou a face oculta…) do BE e PCP, e vitimiza o Partido Socialista (com razão), pelo que o acto eleitoral próximo (determinado por “aquela” esquerda, não é demais ressaltar, apesar das manobras verborreicas como se tivéssemos 5 anos), trará um novo enquadramento político, o reagrupar e a recomposição de forças políticas, as lideranças sólidas a par de chefias frágeis e mutáveis, quiçá a redefinição da social-democracia e do socialismo, talvez mais abstenção marcada pela desilusão das pessoas, mas sempre uma expressão de vontade do povo eleitor.

O Partido Socialista poderá sair reforçado na sua representatividade, pelo reconhecimento do desempenho governativo, pela vitória contra a pandemia ao lado do povo, pela promoção da igualdade de oportunidades que gerou, pela traição da esquerda à sua esquerda (que a faça reflectir, para reenquadramento…), pelos desafios futuros que assume em coerência, pelo primado da pessoa mais do que os proveitos próprios.

Os partidos da direita, com tendência para a defesa dos seus interesses e não só da ideologia, não os individualizando porque a sua tendência é a união para a promoção de vantagens para uns e inconveniência para outros (já foi alvitrado o corte do 14º mês para os reformados…), poderão ser vistos pelo eleitor como alternativa de regime, por vingança pós-queda da esquerda, pelas promessas de encantar, pela apropriação de críticas à injustiça e ao beneplácito (que também praticam…), pela demagogia e (outro) radicalismo que desacredita as instituições públicas.

Como socialista assumido, pelos direitos humanos, sem dogmas e contra a idolatria, sem demonizar a política mas contra campanhas fora de moda, na defesa da liberdade e da justiça social, no respeito pela convivência entre as opções políticas diversas, defenderei o voto no Partido Socialista como voto útil, com ou sem uma nova esquerda madura, o voto necessário e proveitoso para uma sociedade com dignidade, direitos e qualidade de vida.

(*) Médico