Coimbra  25 de Outubro de 2021 | Director: Lino Vinhal

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Hernâni Caniço

Um Serviço de Urgência nos HUC, basta?

15 de Abril 2021

Em determinado dia pré-Covid, pelas 06h00 da manhã, um doente (simultaneamente médico) foi transportado pelo INEM para o Serviço de Urgência do Hospital da Universidade em Coimbra, por apresentar um episódio (grave) de fibrilhação auricular.

Aí chegado, após atendimento burocrático pela enfermeira da triagem, foi encaminhado para o sector de Medicina Interna, onde foi iniciada terapêutica pelo médico de serviço, com medicação oral (que o doente já estava a fazer e não tinha impedido a crise) e monitorização.

Pelas 08h30, não havendo resolução da situação clínica, veio a médica cardiologista, que iniciou terapêutica endovenosa apropriada, e de seguida concluiu o seu turno de serviço nocturno.

Às 09h30, veio outra médica cardiologista que, atenciosamente e com desvelo, informou que caso a situação clínica não revertesse (por cardioversão química – medicamentosa), pelas 11 horas teria de fazer exame cardíaco (ecocardiograma via esofágica) e depois fazer choque elétrico (cardioversão elétrica) na sala de emergência.

À hora indicada, a situação clínica não estava resolvida, mas por sobrecarga de outros actos médicos de outro médico cardiologista que faria o referido exame, apenas foi possível realizá-lo às 13h15.

Não havendo maqueiro, assistente operacional ou enfermeiro disponível para transportar o doente em maca para o 3.º piso, foi a médica cardiologista que o fez…

Pelas 14h00, o doente em estado de semiconsciência, novamente transportado pela médica cardiologista, voltou à box onde estava no Serviço de Urgência, julgando encontrar-se em local diferente. É que na sua box (individual) estavam já cinco doentes em maca, repartidos por duas filas, tendo-se juntado a eles…

O resultado do exame realizado permitia que fosse feita a cardioversão eléctrica que, no entanto, foi agendada para as 17h00, porque a médica anestesista tinha outros serviços a executar, entretanto.

Às 17h00, não havendo novamente maqueiro, assistente operacional ou enfermeiro disponível para transportar o doente em maca, agora para a sala de emergência, foi (pela terceira vez) a médica cardiologista que o fez…

Por continuada sobrecarga de serviço, a médica anestesista apenas surgiu às 20h00, para executar o procedimento previsto ao doente, tendo resultado com sucesso, pelo que o doente, após permanência de 15 horas no Serviço de Urgência do HUC, teve alta às 21h00. Vivo, neste caso.

Saindo pelo seu pé, o doente (também médico, como já disse) dirigiu-se a cambalear para a porta de saída que mal conseguia vislumbrar, sendo barrado pelo segurança que o mandou dirigir-se de imediato ao atendimento administrativo para pagamento dos serviços. Tal foi feito, embora com alguma dificuldade, dado o estado de saúde do doente não ser o mais adequado para esse fim, como se compreenderá.

O relato (resumido) deste episódio de urgência, onde não é descrito o sofrimento do doente, tem por finalidade colocar ao leitor duas questões.

Dado o encerramento do Serviço de Cuidados Intensivos e o encerramento parcial do Serviço de Urgência no Hospital dos Covões, um serviço de urgência em Coimbra é suficiente para a prestação e qualidade de cuidados a quem o procura, na cidade e região?

E os recursos humanos em saúde existentes em Coimbra concentrados no Hospital da Universidade de Coimbra, também são suficientes para o objectivo de salvar vidas e garantir a missão e a assistência em saúde, expressa constitucionalmente através do SNS?

Deixamos a resposta ao critério do leitor.

O leitor que decerto, também agradecerá os cuidados, o profissionalismo e a humanidade dos profissionais de saúde no HUC (bem como dos profissionais de saúde no Hospital dos Covões).

O leitor a quem não vai ser pedido que tenha de ir transportar doentes dentro de um hospital (qualquer hospital).

O leitor a quem se deseja que não aconteça nenhum episódio deste calibre e as respectivas intercorrências descritas, entre outras.

(*) Médico