Coimbra  22 de Agosto de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

António Barreiros

Um país minado…

27 de Abril 2018

O presidente da Câmara Municipal de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, denuncia que parte do dinheiro para apoiar as vítimas dos incêndios desapareceu. O fundo de apoio tem apenas 1,9 milhões, de um total de 3,2 milhões.

E mais: após os incêndios de Pedrógão, diversas entidades e empresas criaram contas de apoio às vítimas. Acontece que parte dos fundos de solidariedade desapareceu.

Perante esta notícia que esbarra numa tragédia nacional de uma dimensão humana, social, e de perda de bens, de haveres e de prejuízos de toda a ordem com elevada monta, não me apetecia tecer comentários.

Mas, e pelo facto de ter sido talhado, quando de pequenino, quando se torce o pepino e, depois, na infância e na juventude, por preceitos da tradição e da cultura judaico-cristã, não posso ficar calado.

Era consentir. Era pactuar. Era não intervir. Era tapar a boca. Era não denunciar. Era ser cúmplice. Era arregimentar com alguma gente que se serve da desgraça alheia, indiferente ao sofrimento, à dor, às lágrimas. às perdas físicas de familiares e de amigos e, também, a todas as outras desgraças que salpicaram a região Centro do país de forma absurda e com uma forte onda fustigante, em chamas e fumos.

Estou e fiquei afrontado, humanamente.

Choram-se, ainda, os mortos, mais de uma centena; consolam-se os feridos e os estropiados; lamenta-se o que o fogo levou em casario, em matas, em propriedades, em animais, em fábricas, em empresas e num varrimento colossal que atapetou tudo com um cinzento-negro.

Esta notícia choca. Faz-me enraivecer. Mete-me lume para as entranhas do meu ser como homem, cidadão e português. Arroxeia-me o rosto de um avermelhado de vergonha. Entristece-me. Dá-me ganas de me exaltar. Implode-me a ir às ventas de quem fez desaparecer o dinheiro para os seus próprios interesses.

Como será possível este desvio de fundos com um propósito tão nobre? Como será possível que gente nossa, do nosso terreno Pátrio, se aproveite e se alimente da tristeza e da desgraça alheia? Como será possível terem espoliado uma soma tão astronómica, cerca de 1,3 milhões de euros, para ajudar a reconstruir o que – muitos, centenas – perderam num acender e apagar de um fósforo?

Este país não existe ou melhor está vivo para quem dele se tem servido sem consciência cívica e de cidadania. Para os que papam e se pavoneiam nalguns corredores dos poderes. Para os que, sorrateiramente, sabem ter manha e artimanhas para se aproveitarem da ingenuidade dos outros. Para os que sabem que os governos têm sido frágeis na arte de defender os seus concidadãos. Para os que capturam a justiça. Para os que, por detrás dos biombos dos fortes, se escondem para traficar influências e manobrarem as regras do jogo. Para os que manipulam todos os sectores porque espreitam um deslize para se fazerem presentes.

Não se pode deixar que esta vilanagem passe incólume; se esquive por entre o fogo e o fumo; se ampare na miséria dos outros; se amanhe com os fundos de contribuições de benfazer, a maioria anónimas; e se vanglorie, nas traseiras de algum muro das teias de uma máfia rústica, impiedosa, malfeitora e desprovida de sentimentos humanos, da sua proeza de ter engolido, para proveito próprio, os dinheiros que os que ficaram a arder tanto precisam para recomeçarem ou se estabilizarem na vida.

Um país não pode permitir que esta e outras situações, de desvios ou de corrupções que desgastam e a todos derrotam, continue a subsistir numa sociedade que se pretende justa, igualitária, equitativa e solidária.

Uma democracia que se preze investiga para engavetar quem não sabe viver em sociedade e não respeita as regras de vivência humana, democrática e cívica. Um democracia não pode ter contemplações por hierarquia de função, de profissão, de riqueza, de classe, de tudo o mais e quanto se possa argumentar. Uma democracia tem como pilar fundamental a justiça. Se esta falha os alicerces estão em risco. Depois, chegam as vozes críticas dos populismos. Como se esses ressurgissem por magia, reacção química ou outra…

Temos de ficar a aguardar o que as nossas entidades e instituições vão armar para dar caça a esta gente. E a outros que, e entretanto, foram delapidando, das mais variadas formas, o nosso erário público e os nossos bancos. Que não haja, também, contemplações para que o povo acredite que Abril foi um bafo a abrir novos caminhos… Não nos façam descrer nesta fase da nossa História.

 

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