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João Pinho

Um “cheirinho” a eleições

8 de Junho 2017

Sente-se pelo município o cheirinho típico a eleições autárquicas. Um outdoor aqui, outro acolá a despontar, cabeças de lista à Câmara Municipal e Assembleia Municipal há muito definidos começam o trabalho de terreno, ancorados, no caso dos partidos, nas máquinas concelhias e distritais.

Pelas freguesias, o jogo foi mais complexo e demorado, com anúncios de cabeças de lista depois de assembleias/plenários de militantes. Findaram assim as longas semanas de diálogos mais ou menos secretos, em que transpiraram rumores, se jogaram cartadas, até se consumarem as desejadas confirmações.

O primeiro partido a fechar os dossiers «freguesias» foi o PS, o que pode ser um bom indicador – se representar organização e trabalho – ou mau, dado que a pressa nunca foi boa conselheira. Já a coligação PSD/CDS/PPM/MPT segue uma lógica mais vagarosa que será um bom indicador – se for provocada por ponderação e análise – ou mau se resultar de ausência de candidatos credíveis e com capacidade ganhadora. Em termos de união entre passado e presente, de respeito intergeracional, a coligação deu um exemplo vivo de como se deve trabalhar politicamente: na UFC o histórico Hélder Abreu, apesar de debilitado, não vira a cara a luta e integra a lista em n.º 2, apoiando o candidato João Francisco Campos.

Quanto às outras forças políticas é nítido o relativo atraso sendo, no entanto, de destacar, a capacidade revelada ao nível do recrutamento pelo estreante nestas lides, o Somos Coimbra, muito virado para o sector universitário (se boa ou má opção o futuro dirá) enquanto CDU e CPC, trabalhando em modos opostos, um mais reservado outro mais exposto, vão compondo os seus ramalhetes.

Nos espaços sociais e de convívio, o tema ganha relevo. Alguns candidatos, já designados e confirmados, começam a aparecer mais do que o normal, num jogo bem conhecido de sedução entre pré-eleitos e eleitores, que passa do mundo físico e real, para esse outro mundo, virtual e em rede, ainda tão estranho para alguns, mas onde se irão também jogar cartadas, quiçá decisivas.

Agora é tempo de limar arestas e dar o passo seguinte, que mais não é do que encaixar pessoas nos perfis definidos: preparar listas de homens de boa reputação, conhecidos mais pelos bons do que pelos maus motivos, com capacidade de credibilizar e, acima de tudo, que garantam a tão desejada vitória.

E a sociedade que espera deste movimento cíclico da vida política portuguesa?

Programas e manifestos de categoria, pejados de ideias concretizáveis, que unam os assuntos da alta política com os da média e baixa, que lhes toquem o coração, preferencialmente, nas coisas do dia a dia, desde a empregabilidade à qualidade de vida, passando pela defesa da identidade e cultura de cada uma das comunidades que compõem a Municipalidade de Coimbra.

Ás forças políticas em jogo o desafio não se cinge a ganhar ou perder. A meu ver é importante olhar mais além, à crise da participação democrática, problema crónico do nosso sistema, que tem afastado tantos milhares do voto, preferindo a abstenção ao exercício de um direito que lhe assiste constitucionalmente.

Aproxima-se o Verão, que tudo indica será quente, com a temperatura dos termómetros políticos a dispararem para valores que só se atingem em ciclos de quatro anos.

(*) Historiador e investigador