Coimbra  17 de Abril de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Kito Pereira

Um centenário amargo …

9 de Junho 2023

Este não é um texto versando futebol. É uma reflexão sobre uma instituição histórica do interior de Portugal. Afinal, o meditar de quem lá viveu. De quem aprendeu a amar o silêncio das montanhas. De ouvir os chocalhos das ovelhas no redil. De olhar os céus e das nuvens cor de lã arrastando as suas sombras no mistério dos vales e no porte austero das montanhas.

Hoje é o dia do fechar as contas de um campeonato de futebol. Para alegria de uns e tristeza de outros. Um campeonato do litoral. De uma refrega desportiva misturada da orgia obscena do dinheiro numa indústria parda, com o arremesso de insultos de blocos antagónicos do norte e do sul.

Depois há os outros. Os que respiram o ar fresco e despoluído sem o bulício da massificação. Quilómetro após quilómetro, subimos no mapa do nosso deslumbramento. Alpedrinha – a Sintra da Beira assim lhe chamam – deixa-nos a vaguear num horizonte de concórdia. Longe, lá muito ao longe, adivinhamos os contrafortes de Monsanto. E nós ficamos ali, soterrados de emoção, embalados naquele berço de beleza. Descer ao Fundão. De uma árvore roubar uma cereja vermelha e carnuda. São as cerejas de Portugal.

Quando descemos a estrada larga e de bom piso, lembramos Amália Rodrigues e sua voz inconfundível. Cantou a cidade-neve. Cantou a Covilhã. A cidade no seu anfiteatro que se espraia pela vertente da montanha. Estrela se chama esse altar onde o caminheiro sensível se ajoelha numa prece à natureza., No bojo da cidade- neve, vive uma instituição. Um clube em tempo de centenário. Na galeria dos seus heróis do passado, lembrar Rita, Corales, Manteigueiro, Lãnzinha e outros. Talvez Simoni, bom de bola e galã argentino em passo de tango de uma época romântica dos corações em alvoroço, mereça um lugar de honra mais dourado na história da instituição.

Era quando a montanha visitava o litoral dos clubes ditos mais apetrechados desportivamente. Era essa afirmação do dito interior, a desafiar um Portugal acéfalo a viver a duas velocidades e o anátema do Portugal profundo.

Em ano de centenário, o Sporting Clube da Covilhã desceu de divisão. Os ares da Serra são agora mais frios. Talvez a Estrela esteja mais triste. Nesta primavera, a Serra vestiu as cores do seu inverno desportivo. Mas na roda dos alcatruzes da vida, um dia virá que o estimado Sporting Clube da Covilhã e as seus diletos filhos da montanha, voltarão a envergar a camisola verde da sua esperança.

Da esperança de um país no seu todo. Dos adufes de Monsanto às guitarras de Coimbra. Dos Pauliteiros de Miranda ao Corridinho do Algarve. De um abraço fraterno do Continente às Ilhas. Um abraço bem português.