Coimbra  17 de Novembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Vítor Rodrigues

Três décadas de rastreio de cancro da mama em Portugal

2 de Novembro 2019

Presidente da Liga Portuguesa Contra o Cancro

 

Cumprem-se, este ano, três décadas de rastreio de cancro da mama em Portugal. Este rastreio foi introduzido em 1990, na região Centro (após um ensaio piloto que se iniciou em 1986), de acordo com as melhores metodologias e procedimentos então preconizados na Europa que, ainda hoje, se mantêm, na sua quase globalidade: convite a toda a população elegível (à época, dos 45 aos 64 anos), forte ligação aos cuidados de saúde primários e à comunidade, utilização predominante de unidades móveis de mamografia privilegiando a proximidade, repetição a cada dois anos, avaliação centralizada do exame mamográfico, com dois radiologistas e terceira leitura independente, consulta clínica presencial em caso de não normalidade total, em espaços dedicados não-hospitalares, e protocolos específicos com hospitais para encaminhamento rápido e adequado.

Desde logo, o suporte legal e financeiro foi assegurado com o Estado, de modo a permitir a sustentabilidade e crescimento do programa, bem como a colaboração activa das entidades públicas e oficiais e dos profissionais de saúde.
Progressivamente, o programa executado pela Liga Portuguesa Contra o Cancro foi-se alargando pelo território, surgindo em 1997 na região Sul e em 1999 na região Norte. A ARS do Algarve iniciou-o em 2005 e os governos Regionais da Madeira e dos Açores iniciaram-no em 1999 e 2008, respectivamente. Actualmente, apenas a ARS de Lisboa e Vale do Tejo não tem a cobertura geográfica e populacional completa, embora recentes decisões governamentais nos perspectivem essa cobertura a médio prazo.

Este programa tinha (e tem) subjacente a consciencialização de que o diagnóstico precoce, e uma terapêutica atempada e de qualidade, é um factor fundamental para a diminuição da mortalidade.

Por outro lado, o tratamento tendencialmente menos invasivo e mais efectivo é, também, contributo fundamental para uma indução de uma melhor qualidade de vida das sobreviventes desta patologia, felizmente cada vez em maior número.

Ao longo destes anos houve aspectos que foram evoluindo, nomeadamente as características tecnológicas relacionadas com os equipamentos de mamografia. Estes equipamentos produzem exames cada vez com maior acuidade diagnóstica e com acentuada redução da quantidade de radiação emitida. Também a exaustividade das convocatórias personalizadas, o reforço da informação, em qualidade e em quantidade, às utentes, aos médicos de Medicina Geral e Familiar, a rapidez de transmissão de imagens para uma leitura da mamografia mais rápida, são conquistas que têm vindo a ser alcançadas, sempre alicerçadas em sistemas de informação robustos e evolutivos. Também o desenvolvimento tecnológico tem sido colocado à disposição dos radiologistas, no sentido de reduzir o erro potencial ou a dificuldade diagnóstica, recorrendo a técnicas de tomossíntese, de leitura automatizada de densidade mamária e de inteligência artificial.

Também estes programas populacionais organizados, através da sua estruturação operacional, têm vindo a fornecer informação importante na crescente implementação de unidades de mama, em muitos dos hospitais portugueses e europeus.
Toda esta actividade de Medicina Preventiva, porventura das mais escrutinadas pela comunidade científica e pela sociedade em geral, sujeita a critérios e procedimentos de controlo e garantia de qualidade europeias e mundiais, regularmente revistos, irá continuar a ser a uma das armas mais importantes na batalha contra o cancro da mama feminina, até que, daqui a alguns anos, a investigação científica produza novos testes diagnóstico e valide a sua adequação e utilidade.

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