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Rui Avelar

Sócrates reconhece que, afinal, embaraça

4 de Maio 2018

José Sócrates – que anunciou, hoje, ter-se desfiliado do PS – reconhece, afinal, constituir “um embaraço” para o Partido Socialista, associação cívica que com ele pouco justificou o adjectivo.

O anúncio do autoproclamado “animal feroz” foi feito num Jornal dirigido por um amigo de Sócrates, Afonso Camões.

O antigo primeiro-ministro desfruta, como cidadão, do princípio da presunção de inocência, mas ter necessitado de mais de três anos para perceber que constituía “um embaraço” para o PS não abona a favor da sua percepção da vida e das coisas, sempre marcada por profundo narcisismo. De resto, o ex-governante denota nunca ter percebido que, em política, o que parece é.

Para a História fica um fulgurante projecto de poder pessoal no âmbito do Partido Socialista.

Sócrates – que ascendeu, em 1995, a secretário de Estado, antes mesmo de haver ministro(a) para a sua tutela – tornou-se o principal responsável pela pasta do Ambiente, em 1999, e, volvidos cinco anos, foi catapultado para a liderança do PS.

“Estranhos tempos estes” em que lembrar o direito à presunção de inocência “se confunde com a defesa seja de quem for”, escreveu, agora, José Sócrates, fingindo ignorar que tal direito se confina a um princípio de apreciação da prova.

Repito: ele nunca percebeu que, em política, o que parece é. Por isso, tardou a alcançar estar politicamente morto.