Coimbra  21 de Outubro de 2019 | Director: Lino Vinhal

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António Barreiros

Sociedade Filantrópica: Recordação e saudades

20 de Março 2018

Se me permitem – sem vaidade ou manifesta forma de enaltecer a Sociedade Filantrópico-Académica da Universidade de Coimbra, mas com a certeza de que lhe presto uma homenagem simples, englobando todos os que a serviram com elevação, honra, discrição, fulgor, sentido de oportunidade laboral, amplo trato e uma dedicação a uma causa nobre – fica aqui o meu testemunho.

Homenagem mais sentida e sofrida, porquanto o meu pai ali foi funcionário, durante mais de duas décadas, transitando, depois, por môr da acção dessa reconhecida e meritória instituição universitária, para a primeira cantina, ao fundo das Escadas Monumentais, onde foi gerente por volta de uns 10 anos.

Nessa sociedade de benfazer, de apoio aos estudantes com dificuldades económicas, filhos de famílias afastadas de Coimbra, do Interior das nossas Beiras, dos Alentejos (Alto e Baixo), do Algarve, para lá dos Montes e do Minho, no Norte, dos arquipélagos da Madeira e dos Açores e, também, das províncias ultramarinas, valorou um grupo de colaboradores, de que destaco o António Rebelo, uma figura da Sé Velha; o António Cipriano, árbitro de andebol e morador no Marechal Carmona (hoje, Norton de Matos); o Zé Moreira, além de outros que a minha memória já não alcança, onde incluo, sem lisonja, o nome de meu pai, o Aires Ribeiro.

Histórias muitas, as que ouvia, por boca do meu progenitor, contar lá por casa.

Todas com um traço comum: o apoio aos que vinham de fora para, com a capa e a batina, o traje que igualava e podia servir a todos e por todo o tempo da vida académica, estudar com afinco, firmeza e muita devoção na Faculdade que haviam escolhido, na perspectiva de virem a formar-se para serem alguém, candidatando-se a lugar público ou a outro que lhes pudesse dar mais dignidade que os pais, a maioria, nunca alcançara na vida, porque os tempos eram bem outros.

Lembro-me de meu pai dizer que emprestara a este e àquele 20 escudos (dinheiro à época – vivia-se na década de 50 [do século XX], segundo o meu pai) para que pudesse sobreviver por atraso no pagamento da bolsa. Não vou, por deferência e protecção do bom nome, divulgar figuras da Medicina e do Direito, especialmente dessas faculdades, a quem o meu pai e outros funcionários ajudaram com esses empréstimos.

Mas, e daí decorrente, entre muitas, uma história que me fez transvasar de alegria e de emoção. Era eu jornalista de “O Primeiro de Janeiro” e incumbia-me, a Direcção do Jornal, de elaborar “Cadernos Regiões”. Coube Trancoso. Andavam de candeias às avessas o presidente da Câmara Municipal da época (anos 80) e um “ex”. Quis ouvir os dois, dadas as questões que os dividiam e se reflectiam na comunidade. Quando abordei o “ex” e soube que eu era de Coimbra, logo atalhou para me questionar se eu conhecia a Sociedade Filantrópico-Académica. Disse-lhe que sim, mas sem adiantar mais.

Dissertou, então, para me dizer que, apesar de viver em Angola, era um funcionário dessa instituição que lhe enviava as sebentas e, depois, lhe indicava as datas e as horas dos exames. “Assim me licenciei” – rematou, sorridente. Mas que não mais soubera desse “amigo” da Filantrópica. Perguntei-lhe o nome. Atirou: “Aires”. Respondi: “é meu pai”. Levantou-se da secretária e fez-me erguer da minha cadeira. Levantou-me, em peso, ao ar. “O Sr. já não sai daqui hoje, porque vai jantar a minha casa e vamos telefonar ao seu pai. Devo-lhe o que sou, advogado”. Envergonhado, regozijei. Meu pai fora, sempre, um altruísta e embebeu-se no espírito da instituição que serviu.

A Universidade de Coimbra e a DG da AAC, além da cidade, deviam, antes do encerramento da Filantrópica, promover uma homenagem a essa distinta e garbosa centenária instituição que, e fruto dos tempos, como o escreveu o Rui Avelar, aqui numa destas páginas, morre aos pés da Torre altaneira da sua vetusta Escola.

 

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