Coimbra  12 de Novembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Sementes de Cultura: Lendas – As bruxas do Reconquinho

8 de Novembro 2019

19 - João Pinho Reconquinho

O Reconquinho é o nome de uma afamada praia fluvial de Penacova, na margem esquerda do Rio Mondego e numa acentuada curva do mesmo, que durante séculos foi um porto seguro das embarcações que seguiam a corrente, levando pessoas e bens até à Figueira da Foz.

Diz a lenda que, em certa noite de luar, ali se juntaram as bruxas das redondezas, metendo-se numa barca do Reconquinho e navegando para a Índia, onde desejavam ir para um encontro internacional com outras bruxas vindas de todas as partes do mundo.

O barqueiro daquela embarcação, em vez de dormir em terra, como costumava, metera-se naquela noite debaixo de umas redes à proa e só acordou em pleno mar. Cheio de medo, do mar e das bruxas, escondeu-se como pôde e a tudo assistiu no grande encontro das bruxas na Índia.

E mais admirado ficou quando ao outro dia pela manhã as bruxas deixaram a barca amarrada no mesmo sítio de onde a tinham tirado para a longa, mas rápida viagem!

Logo que pôde o barqueiro desembarcou e contou ao povo tudo quanto vira e sentira. Mas todos se riram, chamando-o de mentiroso.

Desanimado, regressou à sua barca e foi com surpresa que verificou que no seu interior estava um grande ramo de flores que as bruxas ali tinham posto, em agradecimento pela companhia na viagem.

Desde então as pessoas começaram a olhar com certo receio algumas mulheres que viviam retiradas naquelas imediações, e que tinham hábitos estranhos, apontando-as como bruxas. E, a casa meio arruinada, no Reconquinho, junto à praia fluvial, é ainda apontada como o antigo abrigo daqueles seres sobrenaturais.

Curiosidades: As Irmãs Lara de Arzila

Na capela do cemitério de Arzila encontram-se os cadáveres de duas irmãs, veneradas como santas, e a quem se atribuem virtudes e milagres, as irmãs do Dr. Domingos Lara: Joaquina (Santa Quininha), nascida em 1893 e falecida em 1916; e Carmina (Santa Carmininha), nascida em 1895 e falecida em 1917.

Filhas de abastados proprietários, as duas jovens, durante a sua curta existência, dedicaram-se de corpo e alma a praticar o bem. Os doentes e necessitados das redondezas recorriam à “Casa Grande” que diariamente tinha uma cozinheira a confeccionar comida para os pobres levando para os seus modestos lares aquilo que prodigamente as duas raparigas lhes ofertavam.

Irmãs do médico Domingos Lara, também ele dotado de excelentes qualidades morais, eram as duas jovens por ele informadas da miséria que encontrava em algumas casas da região. Já a tuberculose, a doença que naquela época era tão temida, grassava em inúmeros lares. Ao terem conhecimento desses quadros de miséria, Carmina e Joaquina visitavam de forma assídua essas famílias e, talvez pelo contacto que com elas mantinham de forma tão directa, também elas faleceram vítimas da referida doença, sendo sepultadas no Cemitério do Ameal.

A sua história de vida e vários fenómenos acontecidos após o seu falecimento, difíceis de explicar, fizeram com que a aura de santidade atraísse devotos ou simples curiosos de todo o país.

Queixa-se o povo que as autoridades religiosas pouco fizeram por este caso, que nunca o mesmo foi apurado com rigor, excepção ao Padre Joaquim Cação Mariano que procurou «acreditar a fé» por avaliação superior. Porém, sem sucesso.

Para alguns que gravitam na esfera diocesana a explicação do desinteresse continuado tem origem na política religiosa, que prefere não deixar emergir um novo culto feminino que pudesse diminuir a força da Rainha Santa Isabel.

(*) Historiador e investigador

 

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