Coimbra  19 de Setembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Sementes de cultura: Duas lendas sobre a Rainha Santa

4 de Julho 2019

17 - João Pinho Milagre das Rosas

 

O Milagre das Rosas

Corria o mês de Janeiro e o Mosteiro de Santa Clara de Coimbra reconstruia-se à custa de D. Isabel de Aragão, rainha que tinha um coração de ouro, acudindo a situações de extrema dificuldade, social e económica, que afligia as famílias dos operários.

Na corte havia quem não gostasse dessa generosidade pois as dádivas repercutiam-se no erário régio. Certo dia, um fidalgo próximo ao rei denunciou a situação impondo que tomasse uma atitude.

Assim, alguns dias depois, apercebendo-se que D. Isabel saía do palácio, o rei foi ao seu encontro. Acompanhada das suas damas e cavaleiros, a consorte de D. Dinis levava valiosos bens embrulhados no seu manto, destinados a suavizar a vida de muitos desfavorecidos.

Ao ver o marido, a Rainha e todo o seu séquito empalideceram, pois eram bem conhecidas as cóleras do rei. O que se passou a seguir, transmitido pelo povo ao longo de sucessivas gerações, foi consagrado, por exemplo, nos versos de Afonso Lopes Vieira:

Que levais aí senhora,

Nesse regaço tamanho?

Eu levo cravos e rosas

Que outras coisas não tenho!

 

Nem sequer há maravilhas,

Menos cravos em Janeiro,

Ou serão esmolas isso?

Ou isso será dinheiro?

 

A Rainha não falou

Só o regaço abriu

E eram cravos e rosas

Que dinheiro não se viu

 

A Rainha Santa e o mendigo de Ansião

O Rio Nabão nasce no Município de Ansião, passando por Tomar até desaguar no Rio Zêzere. No tempo do rei “lavrador”, D. Dinis, as suas margens eram pouco povoadas e apenas uns casebres isolados se dispunham ao longo da estrada real que ligava Coimbra a Lisboa.

Uma das figuras mais conhecidas por aquelas paragens era um velho mendigo, o qual, tanto na beira da estrada real como junto da estalagem ali edificada, estendia a mão à caridade, sobrevivendo das esmolas que o povo lhe dava.

Certo dia, quando passava por ali uma comitiva régia composta de nobres e eclesiásticos, ficou surpreendido em encontrar a muito famosa rainha Isabel de Aragão, consorte de D. Dinis, por quem tinha extraordinária veneração dadas as qualidades humanas já conhecidas entre o povo.

E mais emocionado ficou quando a rainha deixou a multidão e veio na sua direcção como se o conhecesse, abonando-lhe boa esmola, facto que atraiu uma onda de mendigos na busca da real caridade.

Nos anos que se seguiram, a presença do velho mendigo não mais seria esquecida pela rainha, a qual sempre se referia ao sítio onde o encontrara como a «terra do ancião».

Assim, o uso repetido do termo ancião (com c. e relativo a pessoa idosa), veio a transformar-se no topónimo Ansião – sede de município com o mesmo nome localizado no distrito de Leiria.

(*) Historiador e investigador

 

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