Coimbra  16 de Setembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Sementes de Cultura: As alcunhas

2 de Setembro 2019

17 - Opinião João Pinho Alcunhas

 

A alcunha é uma denominação ou qualificativa, regra geral picaresca, afrontosa ou depreciativa, que é usada em vez do nome próprio de alguém ou daquele que designa um grupo de pessoas, em razão de alguma sua característica física ou moral. Existem alcunhas colectivas, de carácter étnico, aplicadas aos naturais de determinadas localidades, regiões, províncias, nações e povos. Exemplos: os ericeirenses são apodados de jagozes (=à rasca); os beirões de ratinhos e os minhotos de picamilhos (porque comem pão de milho).

Consciente desta importância, nos vários estudos que efectuei nas nossas comunidades, reservei um espaço para divulgação das alcunhas de cada freguesia estudada. No âmbito da monografia da freguesia de Botão, lançada em 2003, foram identificadas as seguintes alcunhas:

O anjinho, o belo bucho, o bicho, o bufo, o camioneta, o canário, o capitão, o chibo, o chumba, o couto, o esporeta, o farpão, o ferrador, o galhano, o galo, o galdério, o galvão, o já está, o léria, o manhoso, o manso, o melro, o ministro, o musguia, o olharão, o pachacho, o pai do céu, o parilhas, o pederneira, o pouca tripa, o serrador, o ranhoso, o remolha, o toirão, o verdilhão e o vira burras.

Mais recentemente, em 2013, no trabalho que realizei na freguesia de Souselas identifiquei outro conjunto de alcunhas: o vilão de Enxofães, o mariano, o mole, gorgoleiro, o soldado, o finete, o “mao cabello”, o alentejano, a padeira, “a emgeitada”, o Cardadeiro, Tecelão, o ausente, o preto, o velho, o pouquinho, calsão, Mallegiozo, Maligno, Matallão, Bimbo, Gancho, Marmelleiro, Marinheira, Buticaria, pisca, o neto o barbado, o manco, Agulha, Marmamela e Marmamelo, Direito, Bicho, Cação, Peça, Matouto, Direito, Sarrano, Gata, Viras, Taveiro, Saluti, Cão, Chupa-Torçidas, Caçoilo.

As alminhas

As alminhas são um oratório ou nicho (mais raramente, cruzeiro) erguido ao ar livre, em honra das almas dos mortos. Por norma, abrigam um painel ou retábulo com a representação do Purgatório, em cujo fogo purificador se debatem as almas que inspiraram o diminutivo, assistidas por entidades celestes protectoras: Virgem, Arcanjo S. Miguel, Padre Eterno, Santíssima Trindade, Senhor dos Passos, Santo António e São Sebastião.

As alminhas são vulgares nas encruzilhadas e bermas da estrada, colocadas nos locais de transição entre zonas habitadas e desabitadas, ou seja; entre zonas seguras e perigosas. As pessoas que passam depositam dinheiro na caixa das colectas ou deixam pequenas oferendas (velas, milho, feijão, flores).

As alminhas podem ser de dois tipos: as constituídas por painéis evocativos das almas, em geral, e as dedicadas a um determinado falecido, vítima de morte violenta, (acidente ou assassinato, por exemplo).

Estas pequenas construções ganharam vigor após a Contra-Reforma, podendo filiar-se nos Painéis do Purgatório então divulgados, independentemente, de qualquer outro assunto.

De Évora, Igreja de Santo Antão, parece terem passado para Portalegre e daí para Ponte de Lima, acabando por irradiar para todo o país. Nas alminhas quase sempre ocorre a legenda:

Ó vós que ides passando

Lembrai-vos de nós que estamos penando. P.N.A.M.»

(*) Historiador e investigador

 

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