Coimbra  22 de Setembro de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Revisitando o temporal de Verão de Julho de 1941

20 de Julho 2018
13 - João Pinho temporal de Julho de 1941

Temporal de Julho de 1941 – notícia no Diário de Coimbra (25.07.1941)

 

O ano de 1941 foi rico em fenómenos meteorológicos extremos ocorridos em solo nacional. A 15 de Fevereiro o país era atingido por uma tempestade de violência excepcional, com elevados estragos e perda de vidas humanas e que ficou conhecida como o «Ciclone de 1941» – uma depressão com características de ciclogénese explosiva semelhante à que atingiu Portugal nos dias 18/19 de Janeiro de 2013.

De acordo com os registos da época, a tempestade de Fevereiro de 1941 produziu ventos de enorme intensidade, que em várias estações e passados 77 anos se mantêm como os maiores valores observados desde que existem registos instrumentais. Em Coimbra, a rajada máxima fruto daquela tempestade atingiria a extraordinária velocidade de 133 quilómetros por hora.

Este registo, porém, não constitui o máximo observado na nossa cidade. De facto, cinco meses mais tarde, a 24 de Julho de 1941, seria registado o valor de 135 quilómetros por hora de rajada máxima no Instituto Geofísico da Universidade (na Cumeada, a 100 metros do Penedo da Saudade) – que constitui o máximo observado até aos nossos dias, desde que se iniciaram as observações em Coimbra, naquele local (anos 1860).

Este fenómeno meteorológico extremo verificou-se em pleno Verão, no âmbito de uma tempestade violenta que atingiu o Norte e Centro do país, a partir das 16h00. Catalogado, segundo a imprensa da época [Diário de Coimbra de 25.07.1941, p. 1] como «pequeno tufão», produziu efeitos curtos mas violentos: «se fez sentir por pouco tempo, felizmente» anotou-se no referido jornal.

A descrição dos estragos que produziu em Coimbra transmite-nos uma dimensão do que terá ocorrido:

«Especialmente, nos bairros novos, os estragos nas árvores e globos de iluminação pública ainda foram sensíveis. No Parque de Santa Cruz também foram derrubadas algumas árvores. Um barracão da avenida dos Oleiros foi destelhado. As comunicações telefónicas com a Guarda e Oliveira do Hospital ficaram totalmente interrompidas e as linhas para o Porto, Figueira da Foz, Poiares e Penacova reduzidas ao mínimo».

Noutros pontos do país, a passagem da tempestade na referida tarde de 24.07.1941 deixou marcas que perduraram no tempo e no espaço:

Na Lousã, cerca das 16h00 a vila foi fustigada por «fortíssima trovoada, acompanhada dum grande golpe de vento com bátegas de água», inundando os campos e causando grandes prejuízos.

No Porto o vento atingiu a velocidade de 117 quilómetros, segundo dados obtidos no Observatório da Serra do Pilar (rumo S.S.E).

Em Nine (Vila Nova de Famalicão) descarrilou um vagão na sequência do «violento golpe de vento, na estação ferroviária desta vila».

Hoje, tal como no passado, os fenómenos meteorológicos extremos continuam a manifestar-se, deixando marcas mais ou menos visíveis num território cada vez mais vulnerável.

(*) Historiador e investigador

 

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