Coimbra  6 de Julho de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Repuxo do Mondego – postal deslustrante de Coimbra

16 de Novembro 2016

Por altura das festas da cidade, a empresa municipal Águas de Coimbra inaugurou uma fonte luminosa, também designada por fonte cibernética flutuante, colocando-a junto à margem direita do rio Mondego, em frente do parque.

Colocava-se assim ponto final num mistério alimentado ao longo de meses, muito falado nos bastidores, que prometia ser uma das últimas maravilhas do mundo contemporâneo português, capaz de atrair a Coimbra o público que lhe teima em fugir, e marcando, positivamente, o cenário urbano.

A realidade seria, porém, bem diferente. Por 160 000 euros + IVA os decisores de Coimbra permitiram, sem ouvir a sociedade sobre o assunto, que uma mancha viesse perturbar o postal tradicional da cidade. Ao quererem lançar novos horizontes imagéticos feriram a paisagem e a história conimbricense.

A reação foi quase imediata: lançou-se na Net uma petição pública contra o repuxo, as redes sociais foram invadidas com sólida argumentação de vários estudiosos, escreveram-se artigos de opinião – alguns dos quais barrados por certa imprensa mais pegajosa.

Como historiador não posso deixar de colocar várias questões: qual a relação da fonte com a semântica da história de Coimbra? Para quê um jacto de água, com geiser central, rodeado por outros mais pequenos em forma de palmeira que remete para paisagens tropicais ou lagos da europa setentrional? Quem foi ouvido sobre o assunto? Quem foi o mentor de tão absurda ideia?

Para atenuar o impacto negativo desta decisão, que só tem paralelo com o museu-cubículo junto ao estádio universitário (um mal nunca vem só, lá diz o velho ditado), vieram os defensores da ideia alegar que o repuxo é ecológico, que se trata de uma mais-valia pois não passa despercebido, como se tudo o que nos capta a atenção ou surpreende fosse necessariamente bom!

A este propósito fui, há dias, interpelado por um grupo de turistas holandeses que me perguntou o que significava aquela «structure». Hesitei antes de lhes responder, pois na realidade não tinha resposta para lhes dar! Mas não cedi a várias tentações que me invadiram o espírito e remeti-os para a sede da empresa municipal, ali ao lado.

Corre apressado o mês de Novembro e o repuxo continua a fazer tristes figuras: descontextualizado da nossa Coimbra, dispendioso em excesso, segue, orgulhosamente, só, para deleite dos seus padrinhos e espezinhamento do comum cidadão, esguichando vários euros por dia.

Quo vadis repuxo?

João Pinho, historiador e investigador