Coimbra  18 de Julho de 2019 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Relembrando antigos costumes pascais

29 de Março 2018
9 - O Folar do Padre Mesa pascal

Mesa pascal com folar do padre (DR)

O costume de «dar o folar ao pároco» remete para antigas práticas como as «reconhecenças» ou os «afolares» – salários dos confessores, equivalentes, grosso modo, às actuais «côngruas» para sustentação dos párocos. Antigas práticas que caíram em desuso entre nós, sendo para alguns estudiosos reminiscências de um hábito judaico, que dava sorte e trazia abundância aos donos da casa.

Uma das formas mais conhecidas do «folar do padre» consistia no introduzir de uma moeda numa laranja (símbolo da fecundidade, visto o seu interior se multiplicar, dividindo-se em gomos), colocada sobre a mesa pascal e disponível aquando do «compasso» (visita do padre aos paroquianos na altura da Páscoa).

Até há bem pouco tempo em Cernache (Coimbra) e em algumas aldeias da Beira Alta, se conservava o costume de colocar uma moeda cravada numa laranja, pêro ou maçã, e um prato com ovos sobre a mesa pascal (Festas e Tradições Portuguesas, Vol. III, Círculo de Leitores).

A laranja merece alguma atenção especial, na medida em que também podia remeter, numa visão mais sacralizada, para o «metal que matou Jesus», por analogia às moedas e à traição de Judas ou, como acontecia no Minho, como indicação para identificar as casas que «já tinham mandado entregar na igreja o folar do padre», isto é; o sinal ao próprio pároco, no dia do «compasso», de que «o pagamento havia sido antecipado». A laranja simboliza, igualmente, «o coração de Cristo», enquanto os ovos (imagem do início da vida) significam a Sua Ressurreição, ou seja, «o túmulo do qual Cristo ressuscitou, vencendo a morte».

Não é menos verdade que a escolha da laranja poderá estar relacionada com o facto de ser o único fruto que o Inverno nos oferece com abundância. Por isso se diz, ainda em Cernache, que «as laranjas só são boas depois de abençoadas» – referindo-se o povo ao «compasso». Embora se possa relacionar o ditado, eventualmente, com a doçura do fruto: quanto mais para a frente, depois da Páscoa, mais doce a laranja será.

Em muitas aldeias portuguesas, de tempos não muito distantes, o pároco deslocava-se à casa dos paroquianos, acompanhado de duas mulheres com canastras à cabeça, para nelas recolher o «folar», ou seja, as ofertas que lhe eram destinadas: milho, trigo, feijão e, principalmente, galinhas, escolhidas entre as melhores da capoeira – «a galinha do padre», ou «a galinha do folar». Principalmente na Beira Baixa, da comitiva do padre fazia parte um acólito que transportava uma bolsa de veludo destinada a recolher «o folar do padre» (dinheiro).

Borges de Figueiredo, na sua obra Coimbra Antiga e Moderna (1886, p. 359), recordou o costume então bastante praticado de dar o folar ao pároco, pela Páscoa:

«O reverendo, acompanhando d’um sacrista que conduz a caldeirinha da agua benta, e d’um menino do coro que leva um crucifixo, percorre as ruas, e entra nas habitações, dando a beijar o Christo, aspergindo a casa com a agua sobredicta, e apoderando-se (é o fim da visita), da pratinha, que as devotas da casa têm colocado respeitosamente numa salva, ou espetado delicadamente numa maçã ou num pêro…».

É curioso notar como o autor, Bibliotecário da Sociedade de Geografia, não refere a utilização da laranja numa região onde, segundo dados estatísticos oficiais que o próprio recolheu, existiam 264 000 árvores desse fruto.

Hoje, na maioria dos lugares, «o folar do padre» assumiu forma moderna: é costume o padre mandar entregar em casa dos paroquianos, dias antes da visita pascal, uma carta, com algumas palavras, onde expressa os votos de «Páscoa feliz», retribuindo quem a recebe com o usual «folar do padre», entregue depois na igreja.

É caso para dizer: mudam-se os tempos, mudam-se as vontades!

(*) Historiador e investigador

 

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