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João Pinho

Região Centro cobriu-se de luto: A maior tragédia florestal em Portugal

23 de Junho 2017
16 - OP Joao Pinho Instituto de Meteorologia

O registo do Instituto de Meteorologia revela a inexistência de descargas eléctricas nos Escalos Fundeiros

O incêndio florestal que lavrou entre Pedrõgão Grande, Figueirós dos Vinhos e Castanheira de Pêra cobriu a nossa região de luto. A maior tragédia conhecida para a floresta portuguesa ceifou 60 vidas e constitui, para quem assim o quiser ver, a prova inequívoca de que os nossos governantes, do nacional ao local, andam a brincar com o fogo há pelo menos 40 anos.

As conhecidas dificuldades do tempo do Estado Novo, com o povo dependente do sector primário, tinham uma face positiva: os gados limpavam as florestas, a população recolhia a carqueja para currais e animais, cada árvore era fonte de rendimento, da lenha à resina. As florestas estavam limpas e os incêndios não atingiam proporções dantescas.

A passagem para o regime democrático, acentuou a terciarização, o país transformou-se, rapidamente, sendo cada vez menos os dependentes do sector primário. Abandonaram-se milhares de terrenos de cultivo e hectares de floresta, dando lugar a matagais densos, que hoje alternam com manchas de pinhais e densos povoamentos de eucaliptais.

Os incêndios dispararam ao longo dos anos, em especial, durante o estio, a esmagadora maioria por mão criminosa. As florestas tornaram-se um cíclico campo de batalha, obrigando a milhões de investimento em equipamento, formação, estudos técnicos, complementariedade entre cursos universitários e criação de grupos especiais de combate. Os próprios organismos públicos, com responsabilidades sociais e políticas, tiveram de se adaptar à nova realidade para dar resposta adequada a um problema cada vez mais preocupante, cujos elementos principais são o ICNF (prevenção) e ANPC (combate).

Ao fim de tantos anos, de experiência e investimento, acabámos de ser confrontados com a maior tragédia em solo florestal nacional. Como foi possível? Parece-me evidente a resposta, que é a mesma que há anos se vem considerando como o caminho a seguir: os fogos combatem-se no Inverno, fazendo prevenção, obrigando os particulares a limpar o que é seu, aplicando as leis sobre a matéria, devendo o Estado dar o exemplo

Contudo, o Estado tem dado o exemplo contrário: aposta sobretudo no combate, fazendo do fenómeno cíclico do fogo um negócio como outro qualquer, desvalorizando a riqueza florestal. E, imagine-se, é ele próprio, o Estado, por intermédio dos seus organismos, que define uma época de fogos, com várias fases de alerta.

Em Pedrógão Grande, e ao contrário do que inicialmente quiseram fazer crer, não foi uma situação atípica. Assim o afirmaram especialistas da matéria: apesar de violenta foi tipíca, com colapso das estruturas da protecção civil e evidente incapacidade de prever, quando o que mais existem são meios e modelos de previsão.

O atípico foi um incêndio desta natureza em plena Primavera, não na fase de pré-disposição para o combate mais duro (a Charlie), mas sim na que a antecede (a Bravo). Mas, convenhamos, a própria Protecção Civil e Instituto de Meteorologia haviam emitido avisos públicos sobre as condições adversas.

Uma vez mais, facilitou-se e a floresta não está para facilitismos: na minha freguesia, por exemplo (Botão), existem várias zonas florestais onde há meia dúzia de anos se podia percorrer dois a três quilómetros sem problemas e hoje temos silvados com três a quatro metros de altura; onde caminhos vicinais se encontravam desimpedidos e hoje estão tomados por árvores e vegetação rasteira.

Uma realidade explosiva, que encontra eco não só nas áreas florestais do nosso munícipio, mas também nas dos envolventes – há um barril de pólvora a cada canto, pronto a explodir na proporção exacta em que as temperaturas subam e a humidade desce.

O que se espera desta imensa tragédia? Que quem tem responsabilidades políticas e institucionais apresente quanto antes a sua demissão. Não esperem por inquéritos ou comissões de análise que por norma servem apenas para proteger quem falhou.

E como aprecio e procuro a verdade, ouvi, com estupefacção, a PJ informar que o incêndio começara em Escalos Fundeiro, tendo, inclusivamente, identificado em tempo recorde a árvore que tinha recebido o raio fundador da maior tragédia florestal de que há memória.

Por curiosidade, fui consultar o site do IPMA onde se monitorizam variáveis meteorológicas como precipitação, descargas eléctricas, humidade, vento, temperatura. E pasmei: apesar de imensas trovoadas secas que nesse dia fustigaram a região Centro, nenhuma descarga se observa nessa área. Estaremos, portanto, perante um raio que o parta?

Mas, se mesmo assim vingar a tese de causa natural e provada aquela maldita árvore como origem de todos os males, que junto a ela se erga um memorial com duas legendas: a primeira com a frase «Aqui principiou a maior tragédia nas florestas portuguesas. Homenagem nacional às vítimas do incêndio de 17.06.2017 e ao esforço de todos os bombeiros envolvidos»; a segunda, com o dístico «Para que nunca mais se esqueça a incapacidade de coordenar, gerir e agir das forças políticas e institucionais que participaram no combate».

(*) Historiador e investigador