Coimbra  13 de Julho de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Diniz Freitas

Reflexão sobre a Jornada Mundial da Juventude (JMJ)

11 de Agosto 2023

1. Atingiu o fulgor, o deslumbramento, a sublimidade e, em momentos de silêncio, o êxtase, a JMJ. Aplauso e louvor para a Igreja Católica, para o PR, para o governo e autarquias, para as dioceses, corporações e colectividades, para os «surfistas do amor», ou seja, os milhares de voluntários nacionais e estrangeiros, para as famílias de acolhimento, para os fabulosos artistas e para todos os que generosamente se dignaram contribuir para a concretização deste fantástico evento, de uma grandiosidade jamais acontecida no país. Portugal é capaz de grandes façanhas, como no passado, quando a obra é dirigida e orientada com clarividência, competência, solidariedade, generosidade e abnegação. Foi uma bênção para o País, com réditos materiais e espirituais que superam de longe o investimento inicial. Foram por isso estrondosamente derrotados os negacionistas e opositores, no seio dos quais se identificam fanáticos do vazio, indoutos, mitómanos e idiotas úteis, que andaram por aí, mesmo no transcurso da Jornada, a cacarejar sandices, a casquinar, a cochinar e a ruminar cabalas, tentando derruir, desacreditar, apoucar e sonegar o esplendor e o clamoroso êxito do evento, com argumentos falaciosos, absurdos e obviamente tendenciosos. A separação entre Igreja e Estado existe para garantir que ninguém é discriminado por causa da sua religião, não existe para fingir que Portugal não é um país tradicional e maioritariamente católico. A laicidade do Estado não exclui o dever de apoiar e potenciar todas as iniciativas das Igrejas sempre que tenham utilidade pública, neste caso até com dimensão mundial. Por outro lado, há estádios «às moscas» e já se esbanjaram milhões na TAP que garantiam a realização de 30 JMJ, e no entanto todo o mundo cala porque, há longos anos atrás, realizaram-se no país esponsais entre a idiotia e a lucidez.

2. Foi excelente a cobertura televisiva. Lisboa foi capital do mundo e todo o mundo viu o Portugal devoto, simples, ético, visionário, honesto, altivo e resistente inundando as ruas da capital. Esteve mal a TV no desempenho de muitos dos apresentadores e comentadores, com interrupções descabidas em momentos solenes e simbólicos da Jornada, com intervenções perfunctórias e tautológicas, que atingiu o exagero com a reiterada alusão às agressões sexuais na Igreja católica, sem terem debatido muitos outros graves problemas que esta Igreja actualmente confronta e as transformações que é mister realizar. Continua a existir muito analfabetismo cultural na nossa TV.

3. O Santo Padre, o líder religioso mais carismático e ético neste nosso mundo, e a geração JMJ 23, com um milhão e meio de peregrinos, foram as estrelas e os ídolos da Jornada. O Papa Francisco, na genialidade, sapiência e centelha divina dos seus discursos, homilias, prédicas, gestos e atitudes, a todos facultou a lição de esperança («Deus a todos acolhe pelo seu nome»), de coragem e desafio ( «Não tenhais medo»), de abertura e inclusão (« Na Igreja há lugar para todos»), de solidariedade e socorro aos desvalidos e descamisados («A Igreja como hospital de campanha»), de exortação à imitação de Cristo (« Está na hora de lançar as redes»), de que o país urgentemente carecia.

4. Quanto à Juventude, foi de uma alegria esfusiante, radiosa, generosa, tolerante e paciente. Disse NÃO e repudiou firmemente: a acomodação, a alienação virtual, a vanglória e jactância das aparências, a desinformação e a intoxicação dos media, a melopeia e a sofistaria de heresias, de mitologias defuntas e de modas paranóides da modernidade, os magarefes da morte, a neurastenia e a autofilia, a frivolidade e a inanidade do hedonismo, a secularização mundana, lasciva e pagã, a servidão e vassalagem a ícaros e ídolos de barro, ou a bezerros de oiro.

Por outro lado, disse SIM ao amor, ou seja, à mensagem de Cristo, o seu ídolo, o seu farol, o seu guia, a sua bússola, o seu companheiro de caminho. Por isso, esta juventude quer substituir medos por sonhos, quer «surfar» as ondas gigantes das tempestades e intempéries da vida, quer sarar feridas, olhar para baixo e dar a mão ao sem-abrigo, olhar em frente com saudade de um futuro feliz, e olhar para dentro de si para conversar amiúde com Cristo, o seu melhor Amigo. Haja fé e esperança, porque ao crepúsculo vai seguir-se a aurora, refectida nesta nova geração da juventude.

(*) Professor Catedrático jubilado da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra