Coimbra  5 de Março de 2024 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Quem se preocupa com os cuidadores de idosos e doentes crónicos?

19 de Janeiro 2024

Temos vindo a abordar o ciclo da vida, quanto à realização pessoal, à família, aos amigos, ao trabalho, à sociedade, aos estilos de vida e às morbilidades, que concluímos hoje relativamente à forma como a acção dos cuidadores de idosos e doentes crónicos lhes é prejudicial à sua vida pessoal, profissional e familiar, e o grau de importância que lhes é atribuído pelos cidadãos.

Hipócrates (460-377 a.C.) referia que “A vida é curta, mas a arte longa”.

Analisaremos a redução da capacidade intelectual e de estudo e de novas oportunidades, a interferência com a vida profissional, a alteração da motivação, empenho, dedicação e afecto para os idosos e doentes crónicos, a redução da capacidade económica e a falta de apoio dos cuidados continuados da rede pública.

A redução da capacidade intelectual e de estudo e de novas hipóteses de qualificação, graduação e emprego para os cuidadores, pode ser considerado importante, pela ocupação do tempo que seria imprescindível para a formação ou exercício, pelo impedimento de aquisição de novos conhecimentos e práticas, ou pela ausência de controlo de memória, concentração e atenção. Ou pode ser tido como pouco importante, pela graduação da importância na relação trabalho / família, pela desmotivação para evolução e progressão no trabalho e emprego, ou pela falta de oportunidades e custos de progressão académica.

A interferência com a vida profissional, suas responsabilidades e compromissos do cuidador, pode ser vista como importante, por limitar o desempenho e produtividade exigida ou pretendida, por originar incumprimento laboral com as respectivas consequências, ou pelo risco de desemprego tout court. Ou pode ser olhada como pouco importante, por o cuidador dar mais prioridade à família que à vida profissional, por haver monotonia de vida profissional sem estímulo, ou por haver noção de atitude de compromisso como irrelevante.

Relação emocional

A alteração da motivação, empenho, dedicação e afecto para os idosos e doentes crónicos, pode ser julgada como importante, porque há ocupação e tarefas de apoio aborrecidas, por haver inadequação ao tipo de apoio necessário, ou pelo grau de afectividade real restrita. Ou pode ser apontado como pouco importante, por haver alternativa de institucionalização, pela ausência ou perturbação do afecto, ou pela idade e doença do cuidado sem haver relação emocional do cuidador.

A redução da capacidade económica, com menos remuneração e menos regalias para os cuidadores, pode ser encarada como importante, por limitar a capacidade económica dos cuidadores, por impossibilitar outros consumos desejáveis e despesas de outro âmbito, ou por impedir trabalhos adicionais e suplementares rentáveis. Ou pode ser classificada como pouco importante, pela suficiência e autonomia económica do cuidador, por haver recursos financeiros utilizáveis que são da pessoa cuidada, ou por não dar prioridade ao valor material.

A falta de apoio dos cuidados continuados da rede pública, pode ser marcada como importante, por haver responsabilidade do Estado não adequada, pela qualidade de cuidados necessária não estar disponível, ou pela impossibilidade prática do cuidador em prestar cuidados. Ou pode ser reputada como pouco importante, pela existência e usufruto de serviço público em rede, por não haver necessidade de utilização do serviço público em cuidados continuados, ou pelo desejo do cuidador e da pessoa cuidada em manter-se em instalações domiciliárias próprias.

E é assim o ciclo da vida, em nossa opinião, variável consoante os envolvidos e apreciadores, pessoas e cidadãos.

Claude Bernard (1813 – 1878), mais um dos deuses e demónios da Medicina, de Fernando Namora, quando agonizante, dizia: “É pena isto ter acabado”. É a vida.

(*) Médico