Coimbra  25 de Outubro de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Pedro Rodrigues Costa

Quem quer ser o “coveiro” da ferrovia em Coimbra!?

18 de Setembro 2020

Concordo e dou os parabéns pela resolução do problema do “Bota-Abaixo” e da futura implantação de um novo sistema de transportes para a cidade de Coimbra.

É algo que a nossa cidade de Coimbra merece e há muito que foi prometido e é devido a cidade de Coimbra.

No entanto, aproveito esta participação na vossa rubrica de opinião para junto do Município de Coimbra e também das Câmaras Municipais de Miranda do Corvo e da Lousã, das Infraestruturas de Portugal, do Sr. Ministro Pedro Nuno Santos e do Sr. Secretário de Estado Jorge Delgado, manifestar o meu desagrado e total desacordo, na substituição do comboio pelo autocarro no ramal da Lousã e pasme-se a existente e útil ligação ferroviária eléctrica entre Coimbra B e Coimbra A.

Infelizmente, a ferrovia foi “empurrada” para longe do centro de Coimbra, em completo contraciclo com as modernas tendências de modernização e da valorização da ferrovia em termos internacionais e bem evidentes no que podemos ler e ver nos motores de pesquisa na Internet.

Obviamente, que entre ter zero e ter algo no ramal da Lousã, é preferível ter um transporte que sirva as populações da zona.

Mas existem alguns paradoxos, e duas realidades no nosso país, que importa referir e reflectir:

– Enquanto que em Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã, abandona-se e desiste-se da ferrovia, quando na mesma altura e no mesmo momento, as gentes e as autarquias do Vale do Sousa, pretendem uma nova linha ferroviária e a reabertura de parte da linha do Tâmega entre Amarante e Livração a linha do Douro.

– Lisboa e o Porto vão ter novas linhas (ferroviárias) para uso nos seus sistemas de metro e pretende-se modernizar a linha de Cascais.

– As cidades de Castelo Branco, Covilhã e Guarda, vão estar ligadas de novo pela ferrovia da Beira Baixa, depois de estarem desde 2009 sem caminho-de-ferro, e após a realização de importantes obras de melhoramento e eletrificação desta linha centenária.

– As gentes e as autarquias do troço da linha do Douro, entre Pocinho e Barca de Alva, e a própria CEE projectam e defendem a reabertura da totalidade da linha do Douro.

– A linha de caminhos-de-ferro no Algarve, entre Vila Real de Santo António, Tavira, Olhão, Faro, Portimão e Lagos, vai ser alvo de electrificação e de melhoria das condições do uso da ferrovia.

– As vilas de Mafra e Malveira, e as cidades de Torres Vedras e Caldas da Rainha, no Oeste têm previsto, para em breve receber importantes melhoramentos, através da eletrificação de parte da linha do Oeste.

– As cidades de Évora e Elvas no Alentejo estão neste momento a ser alvo da construção – sim construção – de um novo troço linha ferroviária, electrificado, e que para além do serviço de mercadorias poderá vir a ser possível o serviço de passageiros, com ligação entre Évora – Elvas – Badajoz (Espanha).

– Por fim, no ramal ferroviário de Aveiro a Águeda, o célebre “Vouguinha”, o serviço ferroviário vai se manter, e inclusive está previsto o melhoramento através da troca da tracção diesel pelo uso do hidrogénio; ou seja, Aveiro e Águeda apostam na ferrovia, enquanto Coimbra, Miranda do Corvo e Lousã vão ter autocarros eléctricos!? Porquê!?

No projecto MetroBus das Infraestruturas de Portugal, para o ramal da Lousã e ramal de Coimbra, podemos observar:

– Deixa de ser possível usar o ramal da Lousã e a linha de Coimbra, para as mercadorias;

– Os autocarros vão circular mais devagar e levar mais tempo de percurso que o caminho-de-ferro;

– Os autocarros vão ter menos capacidade de transporte de passageiros que o caminho-de-ferro;

– Em termos estatísticos, o transporte rodoviário tem mais acidentes que o transporte ferroviário, por isso podemos concluir que o MetroBus é menos seguro;

– Finalmente, o ramal da Lousã, trata-se de uma linha com características montanhosas, pontes e túneis com apenas uma faixa de circulação, e plataforma apenas para uma linha simples, para além de condições muito favoráveis a criação de gelo na plataforma, ora o problema do gelo é inexistente para a ferrovia em mais de um século de exploração, mas poderá vir a ser um problema para o futuro serviço MetroBus no ramal da Lousã.

A possibilidade do regresso da ferrovia, que no meu entender devia ser para quando fosse possível e não uma aposta num sistema rodoviário onde a ferrovia serviu durante mais de um século.

Finalmente, será na minha opinião um medíocre sistema de transporte, com relativo êxito inicial, mas cujo o futuro a médio e longo prazo passa como disse e bem o ministro Pedro Nuno Santos pela possibilidade do regresso da ferrovia.

(*) Defensor e investigador de temática ferroviária e da história dos carros eléctricos (sobre carris) e transportes da cidade de Coimbra