Coimbra  29 de Maio de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Cândido Ferreira

Que tem o Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia a ver com as cheias?

10 de Janeiro 2020

Não é só em marinhagem e nos futebóis que Portugal é reconhecido à escala planetária. Também em barragens, arte, arquitectura e tecnologia somos excelentes.

Em Arte, criámos o manuelino, desenvolvemos o barroco e como nenhum outro povo espalhámos barcos e construções e recriámos estilos decorativos e musicais, a partir da Europa, de África, do Brasil e da Ásia, que pedem meças a qualquer nação.

Em Arquitectura, este pequeno rectângulo exibe as mais diversificadas construções de toda a superfície terrestre e alguns dos nossos arquitectos são reconhecidos entre os melhores do mundo.

Em tecnologia, para além dos moldes e de peças usadas em naves espaciais, até nos damos ao luxo de organizar a Web Summit.

E, no entanto, se somos assim tão “bons”, como é possível que uma ventania, que nem sequer um tornado ou um furacão, tenha destroçado um edifício adaptado a Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia? Como podem desabar diques recentes e continuar indomável a escorrência de um rio? E como podem tais “desastres” repetir-se, sem que ninguém questione responsabilidades?

A resposta é óbvia: porque, claramente, há muito que algumas das nossas Instituições não funcionam; porque, tristemente, e perante o silêncio cúmplice da classe política e o apagamento das suas elites, Portugal deixou de ser um Estado de Direito.

A realidade… a triste realidade é que, por todo o lado, temos assistido ao afastamento e mesmo à demissão de gente séria e zelosa, enquanto se multiplicam mordomos e mordomias em obras públicas cuja execução nada tem a ver com a arte, a ciência e a lei: em hospitais como o de Coimbra; na recuperação de escolas; na construção de prisões em que o preço por metro quadrado é superior ao de hotéis de luxo. O que para aí vai…

Mas como pode esta triste realidade ter fim, quando o primeiro responsável pelo funcionamento das Instituições, que se desdobra em boletins e folhetins meteorológicos, não arrisca uma deslocação de mil metros para uma “selfie” junto a mais um indício de forte atentado à economia nacional? Se, ao mesmo tempo que se empenha num despesismo e numa campanha populista e mediática sem precedentes, para associar a sua imagem redentora à recuperação de vendavais e leitos de cheia, não perde um só segundo a reflectir e a indagar sobre as verdadeiras causas destas calamidades?

Ou será que isto não anda tudo ligado?