Coimbra  2 de Junho de 2020 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Que futuro para Coimbra?

27 de Abril 2020

Respigando o passado

Coimbra da era pós-moderna é o fruto visível da governação e alternância no poder autárquico de duas forças políticas dominantes: partido socialista e partido social democrata, tendo como líderes e rostos principais, Manuel Machado e Carlos Encarnação.

Não emitirei qualquer juízo de valor sobre quem me parece que tenha estado melhor. Antes respeitarei a forma e conteúdo com que cada um geriu a cidade, de acordo com as circunstâncias e em articulação com decisões supramunicipais e governamentais.

Numa visão retrospectiva da evolução da cidade durante os últimos vinte anos é inegável o progresso e desenvolvimento que a mesma acusa. Coimbra modernizou-se. Ao abrigo dos dísticos “Capital da Saúde”, “Capital do Conhecimento” e “Capital da Cultura” promoveram-se vários eventos e criaram-se condições materiais para a sua realização.

A atribuição de um estatuto pela Unesco, reconhecendo a Alta e a Sofia como património da Humanidade foi o ponto mais alto alguma vez atingido pela cidade ao longo da sua secular história, catapultando-a para os roteiros internacionais de turismo. Apressou-se, por isso, a reabilitação urbana – que avançava a passo de caracol – e, a velha cidade, escura e fria, deu lugar a novos ou renovados espaços, onde a cor e alegria imperam: hotéis, alojamento local, restauração e comércio.

Construímos importantes infraestruturas: rodoviárias, como a Ponte Europa/Ponte Rainha Santa e nova circular externa; ferroviárias, com a requalificação da estação de Coimbra B; de lazer com a reabilitação/requalificação do Choupalinho e do Parque Verde; desportivas com a construção do novo estádio municipal para o Euro 2004 ou o pavilhão municipal multidesportos, redinamizando a área da Solum; culturais como o museu municipal polinucleado ou a Casa da Escrita.

As freguesias e suas coletividades foram alvo de investimentos fortíssimos, num óbvio reforço do poder local: reabilitação de escolas, criação de polos da biblioteca municipal, novas piscinas na Pedrulha e em S. Martinho do Bispo, parques infantis e geriátricos, relvados sintéticos, polidesportivos, pavilhões, pontes e viadutos, apoio a lares e a centros de dia.

Porém este progresso teve um preço a pagar. Perdemos parte da nossa tradição material e imaterial: desertificação do centro histórico, fim de espaços de sociabilidade como tabernas e republicas, e definhamento do comércio tradicional.

Alguns investimentos não produziram os efeitos desejados: o iParque está longe de ser a referência esperada como centro de ciência e tecnologia; o centro de congressos do Convento de S. Francisco, embora recuperado e a funcionar, emergiu como o elefante branco dos últimos 20 anos; a urbanização dos jardins do mondego ou as docas provaram como o poder autárquico é permeável quando não acautelado o interesse público.

Apontando ao futuro

Fazer futurologia é sempre complicado. Mas é certo que Coimbra precisa de um plano estratégico concretizável que a catapulte para uma posição de liderança no contexto regional. Esse é um desafio importantíssimo que urge vencer e que passa pela continuidade do desenvolvimento estratificado: um sistema de mobilidade eficaz capaz de assegurar fluxo de pessoas e bens ao nível intermunicipal; tornar Coimbra um centro cultural de excelência ao abrigo de parcerias alargadas (de forma a fixar turistas continuadamente); promover os produtos endógenos do ponto de vista material e imaterial; estimular as indústrias culturais e criativas; fomentar o trabalho de empreendedores e de empreendedorismo (há muito mundo de qualidade, local e regional, para além dos tubarões habituais); criar um centro interpretativo da História da Cidade; olhar o Mondego de outra forma, fazendo do belíssimo espelho de água algo mais do que um simples sistema de repuxo, ou espaço de discussão sobre os efeitos do desassoreamento ou das regulares atividades de canoagem.

Algumas questões melindrosas como o novo aeroporto talvez venham a ser resolvidas: redimensionando o conceito, quiçá mantendo o status quo anterior, pondo fim a interesses mais políticos do que sociais e atinentes ao bem estar da população. Coimbra não pode ser anedota ou ridículo, tem de ser exemplo e exemplar.

Precisamos para os próximos vinte anos, a meu ver, de novas lideranças autárquicas, de novos protagonistas. Menos políticos de carreira e mais homens experimentados em vários sectores de actividade, com provas dadas de trabalho e capacidade. Que amem e sintam a cidade como a sua casa, mas nunca como a sua quintinha ou o seu pequeno reino, onde bons são os que dizem sempre bem e maus aqueles que têm a coragem de discordar.

É também muito importante que o poder municipal se articule com o universitário e hospitalar, de forma a todos remarem para o mesmo lado, batendo o pé firme aos ditames da capital na defesa dos interesses regionais. A fusão dos hospitais, por exemplo, foi precipitada. Coimbra teria tudo a ganhar com a existência de duas unidades independentes, uma priorizando a cidade e o município; a outra o todo distrital. Mas não foi esta a tese que vingou e que se prepara para enfiar nos HUC a nova maternidade, unificando as duas existentes.

Para mal chegou, também, a construção do novo pediátrico, assim ditada pela lógica concentracionista e neoliberal de serviços hospitalares, bem como o surgimento de hospitais e clínicas em torno dos HUC onde o privado e público se misturam e confundem.

No entanto tem-se prestado pouca atenção aos utentes e aos cerca de 5 000 funcionários dos HUC. Há anos que se reclama, e bem, pela melhoria das condições de estacionamento em redor do hospital, bem como pela requalificação do serviço de urgência. O SNS começa e acaba nas condições dadas a quem o faz: profissionais da saúde, administrativos, auxiliares e utentes.

A Universidade de Coimbra, que desde princípios do século se expandiu para o polo II e depois para o polo III será no futuro, certamente, um ponto fundamental para o sucesso de Coimbra e Região. A sua antiguidade é um posto, a existência de incubadoras e aceleradoras de empresas no IPN apontam o caminho a seguir. Fixar estudantes e docentes de qualidade, conferindo-lhes oportunidades para se formarem e desenvolverem os seus trabalhos de vanguarda será um aspeto central de todo o processo.

Só promovendo a marca Coimbra, num esforço apolítico de união, poderemos acreditar que os próximos 20 anos sejam mais produtivos e gratificantes do que os 20 que já passaram.

Que nestes 20 anos que agora se avizinham, o Campeão das Províncias continue a deixar a sua pegada no periodismo, erguendo as bandeiras do rigor, isenção e imparcialidade. Parabéns!

(*) Historiador e investigador