Coimbra  8 de Maio de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

João Pinho

Que é feito do mundo pré-pandémico?

19 de Fevereiro 2021

Mundo e pandemia

Uma das consequências directas da pandemia na minha vida traduziu-se no afastamento voluntário dos programas de informação generalista, emitidos pelas várias estações de televisão. O espaço público da comunicação foi quase por completo absorvido pelas questões directas, indirectas e ou correlacionadas com a pandemia, numa escala próxima a uma alienação colectiva, com transmissão de volumes colossais de informação – mas pouco conhecimento, diga-se – para os quais não encontro, devo confessar, capacidade de retenção cognitiva.

Talvez seja lícito afirmar que os horizontes mediáticos passaram a ter como bússola orientadora o coronavírus, quase em exclusivo, com danos impactantes ainda por avaliar, conduzindo ao desvirtuamento, omissão ou negação de factos tão ou mais relevantes que não deixaram de ameaçar a vida no planeta, causadores de mortalidade a escalas muito superiores ao drama maior que agora aflige a sociedade global.

Que é feito, na realidade, do mundo pré-pandémico? Será que a chegada do vírus acabou com a fome em África, o flagelo da guerra na Síria, a criminalidade de colarinho branco que multiplicava os processos desencadeados pela justiça portuguesa?

Olhando para o que vou assistindo, de soslaio, nos media, parece ter sobrado, dos destroços da comunicação de um tempo que parece estranhamente muito distante; o fim da era Trump, o caso do SEF, os danos na gestão da TAP, a emergência do Chega. O resto fez-se de entretenimento em força, de ‘big brothers’ contínuos, com aproveitamento dos dramas alheios.

A comunicação social enviesou os múltiplos ângulos de análise que a caracterizaram, ou deixou-se engavetar, a soldo de outros interesses. Creio, no limite da minha observação, que perdeu qualidade, contribuindo para alarmismos desnecessários, promovendo figuras incendiárias, lançando demasiada lenha numa fogueira já por si difícil de apagar.

Relembro as conclusões de um estudo publicado em 2018, pelo famoso UCLA em colaboração com a Universidade de Michigan, no qual se provou que o ditado comum “Somente más notícias são boas notícias” estava errado.

É claro que grande parte do público, aflito com tantos outros dramas, consome o que lhe dão para “comer”: violências, dramas, horrores, como Albarran um dia enfatizou. Mas há tanto de positivo, por exemplo, para divulgar além da resiliência dos profissionais de saúde, do «Vamos todos ficar bem», da campanha de vacinação, ou da diminuição de óbitos e infectados.

Enquanto as audiências ditarem a lei e os consumidores se bastarem com o medíocre, o mundo oculto continuará, a cavalo da comunicação social, a minar os alicerces de uma sociedade mais justa e livre.

(*) Historiador e investigador