Coimbra  28 de Novembro de 2021 | Director: Lino Vinhal

Semanário no Papel - Diário Online

 

Hernâni Caniço

Que deputados, a decisão do povo

26 de Novembro 2021

 

Ser deputado da Nação é uma missão. A frase rima, embora nem sempre seja uma verdade. Declaro, desde já, a minha ausência de conflito de interesses. Na corrida aos lugares, estarei sempre, também declaradamente, na cauda ou nem isso.

Entre vários convites, há muitos, muitos anos, fui convidado para presidir a uma administração regional de saúde, na condição de me filiar no partido no poder na ocasião. Rejeitei, por esse partido não se enquadrar na minha afinidade ideológica. Há menos anos, fui convidado para dirigir um agrupamento de centros de saúde. Rejeitei, pois penso ser um estratega em gestão de serviços de saúde (para tal qualificado, sem presunção) e não querer ser uma correia de transmissão de normativos e burocracia.

Há que anos, apoiei um candidato e depois líder socialista, pelo seu perfil com convicções sem folclore, que debitava ideias e não palavras (ideias pelo primado da pessoa), em coerência pela esquerda (sem bloco central). Disse-lhe ainda que o respeitava, embora não fosse o meu ídolo. Os meus ídolos eram os desfavorecidos em Portugal, as crianças em África e os voluntários em territórios de catástrofe e ajuda humanitária, separando-os dos ídolos de pés de barro, do egocentrismo, da vaidade e do aproveitamento político da solidariedade.

A minha segurança nas opções pela liderança é que, tal como a vaidade, o poder nunca é ilimitado. Há muito, defendo como critério de escolha dos candidatos a deputados, que além de serem os mais bem preparados e social e politicamente mais capazes, sejam representativos de valores e causas solidárias, inseridos e reconhecidos pela comunidade, verdadeiro exemplo de cidadania que combata a passividade da intervenção cívica e política resultante de factos e experiências desmobilizadoras.

Há quem reconheça os cidadãos que optaram por intervir em associações, movimentos e redes sociais que dão vida quotidiana à democracia e à solidariedade, incumbindo discernir a sua mais-valia e não apenas deferência por favor (como é praticado no espaço europeu desenvolvido).

Qualificação e mérito

Estou convicto que a selecção dos candidatos a deputados deve passar pelo respeito pelas estruturas partidárias democráticas, pela qualificação e mérito, pela motivação e Interesse no desempenho, pela libertação de amarras de favores e compadrio. Nestes termos, todos os candidatos me merecem consideração e estima. Deles espero façam valer as suas qualidades.

É preciso que cada candidato seja representativo de um dos diversos sectores da sociedade. Representativo, significa ser líder na comunidade, com distinção de préstimo e confiança; ter gratidão pelo seu trabalho desenvolvido (principalmente se for pro bono); ter boa imagem pública; ser promotor do consenso e não ser gerador de má língua nem ter “rabos de palha” (assim chamados).

E significa ter um curriculum que pressupõe conhecimento, aptidões, competências, atitudes, acção, experiência e inovação; ter vida exemplar, ser bom para ouvir desabafos e ponderado nas apreciações, dar ânimo, estímulo e motivação para agir; não aceitar “cunhas” e resolver os seus próprios problemas.

É preciso que cada candidato possa contribuir para defender e melhorar o Estado social. Defender e melhorar denota não ignorar os problemas sociais, ser voluntário e promotor de ideias, combater a pobreza e a exclusão social, ter interesse na acção comunitária, cumprir uma missão útil sentindo-se bem consigo. O Estado social é a promoção de direitos humanos, não é só a saúde, a educação, a segurança social, a justiça e a cultura, mas também a inclusão social de grupos vulneráveis e grupos de risco.

Abertura à sociedade

É critério essencial de candidatura a abertura das listas de candidatos à sociedade civil. A sociedade civil tem os líderes comunitários, sejam ou não filiados ou militantes no respectivo partido; e tem os independentes, que sejam cidadãos como figuras públicas competentes e não têm só “títulos”, que se identifiquem com a solidariedade, a equidade e a redução da desigualdade social, e que não sejam titubeantes e desistam na primeira hora por melhor oferta, por estados de alma ou por concorrência ideológica desleal.

As listas de deputados devem ser tendencialmente paritárias, embora a igualdade de género (sendo representação social) não seja o mesmo que a igualdade de sexo (sendo representação biológica).

É desejável escolher pessoas empenhadas e comprometidas com um projecto para a sociedade portuguesa. O projecto será político (melhoria das condições e qualidade de vida das pessoas), sociocomunitário (promoção da igualdade, inclusão social, adesão aos valores socialistas), e/ou de desenvolvimento sustentável (o futuro é já aí).

São precisas pessoas capazes de enfrentar os desafios das alterações climáticas, que conheçam e defendam os acordos de Paris e Glasgow (COP26), o que significa ser carbonicamente neutro, pela coesão territorial e resiliência, pela transição energética, por padrões de mobilidade, pela economia circular, pela demografia e fluxo de natalidade, pelos direitos dos refugiados e migrantes, pelo envelhecimento activo e saudável, e por aí fora).

Será desejável a renovação do Parlamento, o que implicaria novas caras, mas não necessariamente caras novas, pois a idade não é documento, a velhice não é um posto e a militância juvenil nem sempre é qualitativa e isenta. Renovação, não é só mudar a embalagem, mas é também melhorar o conteúdo, com código de ética e transparência na política (a política não serve para emprego e ganhar dinheiro, a política é um acto solidário de cultura e acção social).

Que deputados, afinal? A decisão é do povo, que julgará se o que lhe é apresentado pelas forças políticas tem os atributos referidos, se se identifica com o seu perfil ideológico de sociedade e se será capaz de merecer a sua confiança e representação no fórum da verdade.

(*) Médico